23/10/2006
Em seu segundo disco, banda paulista refina os arranjos e coloca melodrama na panela do rock brasileiro
Ninguém disse que o segundo disco seria fácil. Na verdade, as bandas de primeira viagem cada vez mais desdobram-se em cuidados quando preparam um segundo álbum. Uns partem pela via da reinvenção; outros, pela do rebuscamento. "Confirmar", "reforçar" e "repetir" são as palavras-chave. Para as bandas antes-independentes, "profissionalismo" também é a ordem. Quanta responsabilidade.
O quinteto paulista Gram parece especialmente cioso desse peso. Gravou e lançou, de forma independente, seu primeiro álbum em 2003. O álbum, longe de soar tosco ou coisa parecida, registrava uma ânsia pela produção esmerada e pelas melodias, ainda que com resultado imperfeito. Tudo na medida, no entanto, e com direito a hits ("Você Pode Ir Na Janela" e "Faça Alguma Coisa"), clipe descolado e boa arte de encarte. Já pensavam em disco novo quando veio a chance de assinar um contrato com a gravadora Deck Disk, o que imediatamente fez com que adiassem os planos e reordenassem suas prioridades: regravar algumas faixas no primeiro disco e, agora com suporte da gravadora, divulgar novamente o mesmo CD.
Na seqüência, o duvidoso projeto "MTV Apresenta": uma banda recém-saída da independência e com apenas um disco lançado grava um especial ao vivo para a célebre emissora de vinhetas. Mais uma vez, tragados pelo ralo do profissionalismo.
Intencionalmente ou não, "Seu Minuto, Meu Segundo", novo álbum do Gram, reflete essa guinada de profissionalismo inclemente a que a banda foi submetida - e se submeteu. Reinventaram-se e rebuscaram-se, desta vez com visível melhora nos arranjos, polimento melódico e clareza nas composições. Junto com a clareza, no entanto, veio à tona uma carga melodramática que ficava subterrânea nas letras menos inspiradas do disco anterior. "Eu não quero mais pedir permissão pra respirar", canta Sérgio em "Melhor Assim", dando a dimensão dos conflitos em jogo.
Apesar do risco de ser acusado de imprudente na comparação, o Gram, neste segundo disco, aproxima-se de um tom emo - no sentido de exasperação da angústia sob forma de letras sentimentalizadas ao máximo, sem pudores, mas com figuras hiperbólicas (para mim, o exemplo maior desse tipo de letra é uma faixa do Fresno chamada "Cada Poça Dessa Rua Tem Um Pouco Das Minhas Lágrimas"). Os arranjos, mais delicados e melancólicos, com timbres mais limpos, reforçam essa guinada afetiva da banda.
Pessoalmente, fico cada vez mais intrigado com artistas que envelhecem, mas continuam compondo a partir de mentalidade um tanto adolescente (ou totalmente, como no caso da Pitty). O Gram oscila entre a escolha de temas maduros, como "Em Nome do Filho", e narrativas com versos infestados de acne, como na faixa-título ("Chego em silêncio Que acaba em seus gritos Você dá show Hora de sair de novo"). Rock não é só problema de relacionamento, pô. Há uma ampla gama de problemas para serem tratados (drogas, trabalho, perspectivas de existência, realização pessoal, conflitos sociais, e assim por diante). E, em todos os casos, com outras abordagens possíveis para além do confessional, da emoção arrancada das tripas.
Ao Gram, no entanto, não pode ser negado o mérito da inquietação criativa. Eles, sem dúvida, exploraram terreno muito mais amplo nesse novo disco, e com propostas diferentes. A tendência é que cresçam ainda mais.
Daniel Limadlimasouza@gmail.com