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12/05/2008
Portishead
Third

Mercury/Island; 2008



Ressurge das trevas e as traz consigo.

Há mais de dez anos os fãs do puro trip hop aguardam a volta da banda inglesa, referência no estilo, e vão continuar esperando. Portishead abre 2008 com um álbum completamente diferente do que vinha fazendo desde 1991. Tudo bem que o próprio trip modificou-se com o passar das águas; adquiriu brasilidade com Smoke City, contagiou-se pelo tango do Gotan Project, pelo house de Moloko e, não indo tão longe, o breakbeat do Massive Attack. Mas, em se tratando de experiências novas, nada se compara a Third.

Ele já chega assustando. Como assim aquele cara citando em português, brasileiro mesmo, um dogma na introdução de Silence?! "Esteja alerta para as regras dos três: o que você dá voltará para você. Esta lição você tem que aprender. Você só ganha o que você merece". Música que a princípio se chamaria "Wicca", não à toa, pois esta é a Lei Tríplice anunciando o quão pagão será o resto do álbum. Exótico esse negócio de português, mas bem que poderia ter sido dito em alguma língua mais próxima da cultura celta.

Tirando isso, é um dos álbuns mais coerentes que já ouvi. Perturbador, angustiante e mórbido do começo ao fim. Permeia pelas faixas do álbum a sensação de uma narrativa no inverno de um cinza denso, muito bem cantado pela melancolia feminina de Beth Gibbons. Voz esta que nos faz lembrar que o que estamos ouvindo é de fato Portishead.

A maior surpresa do álbum foi com certeza a primeira escolhida como single, Machine Gun, com um peso na bateria eletrônica digno do industrial mais noise e o hipinotismo repetitivo de bater a cabeça na parede. O que reafirma a vontade da banda de perder a carinha single de propaganda adiquirida com a eterna Glory Box (música de Dummy, álbum de 1994).

Pouco melodiosas, as músicas sobrepõem harmonias mas sem buscar picos muito altos de progressão, esta fica por conta do esgotamento que as repetições causam. Em The Rip, por exemplo, as mesmas notas dedilhadas no violão são sintetizadas com pouca variação na tonalidade e a música morre sem ter mudado de frase. E assim são todas, geniais fraseados de pura psicodelia sombria, se me permitem o paradoxo.

Mas nem só de elementos eletrônicos é temperado o álbum, pelo contrário, um violoncelo quase uníssono chora em Small e as percussões ritualísticas de Nylon Smile nos projetam pra um ambiente gótico assim como em We Carry On, onde não só a bateria e a guitarra mas também a forma como Beth canta lembram muito a Siouxsie, com ou sem The Banshees.

Outra insanidade do álbum é o folk acústico ao bandolim de Deep Watter com direito a coro masculino em segunda voz "I'm drifting in deep water/ Alone with my self doubting again/ I try to not to struggle this time/ For I will weather the storm(...)" diz a letra e me lembrou o suicídio de Virginia Woolf.

É preciso coração forte e uma dose de um bom wisky pra agüentar o tranco. E é irresistível não falar em metáforas simbolistas ao ouvir esse álbum; Third toca fundo e pouco racionalismo é capaz de explicá-lo.

Bauhaus deveria ter ensaiado melhor sua volta ou escolhido outra data pois não tenho dúvidas que ficará ofuscado por Third na escolha do melhor álbum do ano.

Agatha Barbosa
agatha.@bananamecanica.com.br

 

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