28/05/2008
Rivotrill
Curva de VentoCoquetel Molotov; 2008Animado por natureza, por sua levada nordestina, o disco recorre ao pós-rock para mostrar a antropofagia em sua melhor performance
Esqueçamos um pouco música brasileira. Falar em maracatu, frevo e até chorinho(!) é a forma mais fácil de cair numa avaliação errônea de
Curva de Vento, o primeiro disco da carreira desta promissora banda de Pernambuco.
Se em alguns
casos, a antropofagia é o grande problema, neste álbum dá para enxergar um ótimo modo de incorporação de influências não-nativas (no sentido mais preconceituoso da coisa) a ritmos brasileiros. Como? Fácil: trabalhando profundamente o amálgama das composições, num equilíbrio entre o comedimento e a coragem.
Tentando ser menos teórico, é como se eu te mostrasse a primeira música do disco,
A Casa, falasse que Tim Buckley levantou da cova e agora está produzindo com Prefuse 73 e você acreditasse. Parece pretensioso demais, mas pegando pelo macro, é a melhor abertura possível para um álbum instrumental que alterna, a todo o momento, passagens introspectivas e propositadamente desengonçadas com esquetes nordestinamente animados de uma flauta orgânica e percussão bem grave.
Por aí já daria para imaginar um disco do tipo "colcha de retalhos", um cozidão de produção cabeçuda moderna e animados samples de música nacional, redundando em um álbum qualquer coisa. Mas o Rivotrill recorreu a uma escola que talvez seja a que mais pede uma unidade na música, um recado bem articulado pela canção, apesar da falta de sincronismo do som: o pós-rock. Daí que vem o cheiro de anos 70 de alguns buracos pelos quais a música se enfia; daí que vem a explicação para quebras que não pareciam óbvias; daí que vem a amarração sem a qual esta peça de excelência musical seria mais um disco que apenas
tentou.
A partir daqui, não importa de que estilo brasileiro eles se apropriam, porque o ideário da banda, o jeito de incorporar estas influências dá conta de tudo. Do chorinho podem vir os metais orgânicos e inesperados, mas na música do Rivotrill eles não parecem improvisos; um acorde do começo da música ganha sentido elevado lá no final, depois de ser construído metodicamente durante toda a composição.
Os momentos de introspecção, as quebras, as esquisitices são a melhor amálgama para o resto desfilar com tranquilidade, sem parecer cópia, sem ser aquele antropofágico que come e vomita tudo depois. Após ouvir o disco dezenas de vezes, os momentos em que você vai assobiar vão ser com certeza os mais animados, com flauta à toda e percussão sincopada; sim, Olinda pode vir automaticamente à sua cabeça sempre que tocar Rivotrill, mas para que todas aquelas referências batidas soassem renovadas e reincorporadas, o (às vezes) longínquo dedo desorganizador do pós-rock teve que fazer valer sua força.
Luis Fernando Santos
luis @bananamecanica.com.br