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31/07/2008
O Teatro Mágico
Segundo Ato
Trama; 2008


Armando novo circo onde a palavra é sua tenda e sobrepõe a música


Mais uma vez usando do ritmo como trilha sonora à sua cena, Fernando Anitelli compõe músicas de pop impregnante como instrumento de comoção. De fato, essa é uma das melhores armas para mobilização. Hitmaker de um grande rebanho de ovelhas, Fernando Anitelli já sabe bem como é isso mas sua intenção não poderia ser mais nobre.  

Lírico até pra dizer oi, o cantor, compositor e dono do epíteto de Teatro Mágico, vem no segundo álbum falando da sociedade com acento politizado e contestador. Diferente da temática do primeiro disco, Entrada Para Raros, em que falava de um eu e um tu ensimesmado. Quem sabe assim, com as músicas mais mobilizadoras, as letras decoradas não sirvam só pra cantar mais alto numa competição de quem é mais cult dentre as meninas-capricho maquiadas de palhaço. “Se você não tem uma responsabilidade com o social, você não é artista: faz entretenimento.” disse Anitelli em entrevista para a Trama, e eu quero acreditar que foi dito num impulso brechtiano excluindo Mozart e metade da história da arte.

Bom, se dará certo eu não sei, mas o discurso talvez seja a única forma de ascendência pro Teatro Mágico com esse álbum, porque musicalmente ele só veste o pano de fundo. Melodias óbvias e refrões cansativos, sambas que parecem que já foram compostos como em Eu Não Sou Chico Mas Quero Tentar, baladas que a gente pensa se já não ouviu em final de novela infantil como em Sonho De Uma Flauta. Nenhuma novidade, nada além de representação.

As brincadeiras lúdicas ficam por conta de alguns objetos de cena como sons de rádio mudando de estação, samplers de rituais primitivos, instrumentos levemente exóticos como derbake, sitar e acordeon e até um Chopin de dezesseis segundos em uma das vinhetas que intercalam as músicas. Tudo tirado de um baú de acessórios empoeirado e montado sem coerência alguma.

Mas devo confessar que Anitelli tem umas letras bem sacadas, uns jogos de palavras que viraram sua marca. O Mérito e o Monstro é um exemplo disso: “o metrô parou/ o metro aumentou/ tenho medo de termômetro...”, falando do cotidiano paulistano numa mistura de reggae e rock de guitarras meio CPM22 e percussões à la Cordel do Fogo Encantado misturadas. Outro trocadilho interessante vem no refrão de Cidadão de Papelão, “não habita/ se habitua”, seguido de um trompete de boca orquestrado com os metais, o que soou meio Los Hermanos, combinando com as referências lado A do cantor. Ou seja, um desperdício de letras.

E não podia faltar o momento recital. O poema A Metamorfose, ou Insetos Interiores, ou O Processo é uma tentativa de parafrasear Kafka e talvez brincar modestamente de Arnaldo Antunes ao reconstruir a metáfora de Bichos Escrotos às avessas, pois os insetos de Anitelli não são bem-vindos e simbolizam tudo que há de pior parasitando dentro cidadão urbano.

“A futilidade encarrega se de maestrá-los
São inóspitos.
Nocivos.
Poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia
O veneno se refugia no espelho do armário – lembrou um deles.
o ninho deve estar infectado! – lembrou outro.
Antes do sono: o beijo de boa noite.
Antes da insônia: a benção.”

É realmente boa, dá vontade de colocá-la inteira aqui. E creio que se a proposta do Teatro Mágico migrasse para esse viés, seria bem mais franco e dane-se o rebanho.

Longe disso, buscam cada vez mais a popularização. O álbum foi disponibilizado inteiro de graça pela Trama Virtual, honrando a fama de ser uma das maiores bandas independentes do Brasil, atrás apenas do Calypso.  

Agatha Barbosa
agatha @bananamecanica.com.br

 

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