Suicidal Tendencies domina primeiro dia do festival, marcado pelo metal e hardcore
A 11a edição do festival Porão do Rock, sediado na arena montada no estacionamento do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, ficou marcado por grandes momentos. O Suicidal Tendencies roubou do badalado Muse o status de melhor apresentação do festival, Mundo Livre S/A se confirmou como um dos melhores shows nacionais, houve uma super seleção com o melhor do hardcore nacional e surpresas como Gilbertos Come Bacon e Amp no Palco Pílulas.
Os dois palcos principais, dispostos lado a lado para evitar atrasos (enquanto uma atração tocava, a próxima banda passava o som), eram separados da pista por uma área vip com capacidade para 2 mil pessoas, o que provocou grandes buracos na platéia durante a maioria das apresentações. A expectativa de 40 mil pessoas nos dias 1 e 2 de agosto não se concretizou, e a média não passou das 15 mil por noite.
Ao público da pista, quem realmente apreciava o festival, coube se espremer na grade ou assistir ao show nos três telões que cercavam os palcos. Apesar do som do palco esquerdo apresentar maior nitidez, foi no direito que tocaram as duas atrações que encerraram o festival.
O terceiro e menor palco, intitulado Pílulas, estava localizado bem próximo à entrada principal do festival, na outra extremidade dos grandes palcos. Mas as desleais apresentações simultâneas engoliram o público das bandas iniciantes, e o som bem mais alto dos palcos principais atrapalhava até os técnicos da mesa de som do pequeno palco, que mal conseguiam ouvir o retorno.
Primeiro dia
O dia inicial do Porão do Rock foi marcado pelas camisetas pretas. O trash metal dos brasilienses do Device, seguido do hardcore trash dos conterrâneos do Podrera iniciou a frenética sucessão de bandas. No palco principal, o Sayowa, de São Paulo, e o Vougan, do Distrito Federal, seguiram o curso.
A única banda que destoou do começo metal do festival foi o Black Drawing Chalks. Enérgicos, os ainda garotos de Goiânia mostraram-se seguros ao executar seu hard rock garageiro para o pequeno público que entrou no Mané Garrincha. A grande maioria ainda preferia ficar do lado de fora, nas barracas de bebidas e tendas de comidas bem mais baratas do que lá dentro.
O Almah, trabalho solo de Edu Falaschi, líder do Angra, encerrou o tom metal da noite. Com um repertório de músicas do pré-lançamento de seu segundo disco, ainda por vir, conseguiu levantar o público apenas quando tocou clássicos da sua banda principal. Mas quando arriscou o cover de Run to the Hills, do Iron Maiden, os metaleiros de plantão largaram suas cervejas do lado de fora e correram para dentro. As rodas de pogos que marcariam o dia existiam por enquanto somente na brincadeira dos funcionários da lanchonete oficial do evento. De camisa aberta, o vocalista abusava da perfomace clássica do rock: mão levantada na direção oposta ao do grito exagerado que fazia seus olhos fecharem, enquanto apóia um dos pés no retorno. Saíram do palco ovacionados por alguns, mas desnecessários virtuosos em excesso para muitos outros.
Os Elffus chegaram mandando ver no seu hard rock de chapéu de cowboy, uma das boas pílulas que mereciam um público maior. Os brasilienses do Lesto! abriram a sessão hardcore com muito peso e um vocalista incansável, que não parou de pular com afinco em nenhum momento do show. As rodas começavam a se consolidar quando a música Flama encerrou a apresentação.
Único a interagir com o telão bipartido do palco Pílulas, Juninho Bill, o ex-integrante do Trem da Alegria, comandou a fraca apresentação da banda Astros. Com letras rasas e um show pouco empolgante, em pouco tempo a banda perdeu o público para o Nitrominds, que subia ao palco principal. Os poucos que restaram ainda gritavam por músicas do Trem da Alegria.
O Nitrominds foi a banda escalada para representar o hardcore paulista. O set list passeou por todos os discos lançados nos 14 anos da banda, e foi a resposta mais positiva do público até aquele momento. "É grande pra caralho aqui! A gente tá acostumado a tocar em buraco pulguento". "Quero ver abrir uma roda! Quem tem a moral? Abre um corredor!". Foi assim a primeira roda de hardcore de verdade no Porão do Rock, com muita pancadaria na pista e alguns firuleiros na área vip.
A escalação do grupo Kill Karma no dia mais pesado do festival freou o ritmo do festival, e nem a boa presença de palco dos integrantes ajudou. Um show que ficou à margem do festival.
Já a podreira cheia de carisma do Mukeka di Rato conquistou o publico. Sandro, vocalista da maior banda capixaba de hardcore irônico e sarcástico, disparou pérolas como "Viva a educação pública do Brasil, modelo para o mundo" e até um cover de Bezerra da Silva foi adaptado. "Povo bonito de camisas pretas, valeu. É um prazer tocar para esse publicuzão". Toca Raul foi a ultima coisa que alguém no público gritou.
A única coisa que conseguiu sobressair ao inebriante crossover do Macakongs 2099 foi o politizado discurso do baixista Phú. Envolvidos com a cena hardcore das cidades satélites de Brasília, questionou a seriedade e o critério de seleção da ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes). "O que a ABRAFIN entende de independente? O Gog (que fez participação no show) tem 25 anos de carreira, nove álbuns independentes e não é chamado pra fazer show! Tem alguém da ABRAFIN aí? Levanta a mão que eu quero ver!". Após o show, para os jornalistas, as críticas à ABRAFIN continuaram.
O MQN de Fabrício Nobre (também presidente da ABRAFIN), com a tradicional cerveja na mão, conquistou o público nestes 11 anos de carreira.Assim, a maioria das músicas foi acompanhada letra a letra pelos fiéis fãs da banda. Sem surpresas, um show potente e direto calcado na grande sintonia que os integrantes têm entre si. "Não tem coisa melhor que tocar com esses três filhos da puta!"
Críticos e mortíferos, o DFC foi uma das bandas que melhor funcionou no palco gigante. A banda soube sintetizar 15 anos de estrada em uma apresentação impactante, marcada pelas músicas rápidas. "Devido ao curto tempo, vamos tocar 50 músicas só! Essa é a 13ª e chama-se Demônio da Fé cristã!". A agressividade das rodas fez suprir a expectativa pelo Suicidal num show a altura da banda americana, e, seguindo a linha proposta pelo festival, deveriam ter sido escalados pra tocar depois, e não antes do Matanza.
Um misto de rock e machismo num estereótipo de caminhoneiro absorvido facilmente pela mídia. Uma opção cult da TV aberta, a fórmula do Matanza funciona como nunca em festivais e dessa vez não foi diferente. Já no palco Pílulas, os conterrâneos do Maldita enfrentaram ira de algumas pessoas, que arremessaram latinhas de cerveja durante o show.
No melhor show da noite, e talvez do festival, os americanos do Suicidal Tendencies (grande influência para muitas bandas de hardcore que tocaram no dia) esmigalharam. Clássicos do crossover como You Can't Bring Me Down, War Inside My Head e Subliminal somados ao vigor que a banda ainda mantém com quase trinta anos de carreira tornaram o show memorável. Alguns moshs e incontáveis rodas contaminavam todo o público.
Na última música, o vocalista Mike Muir começou a selecionar algumas pessoas para subirem no palco, mas muitos não esperaram a seletiva e correram pra cima dele. Ao final do show, para desespero de quem estava na pista lá atrás, cerca de 50 pessoas figuravam junto com a banda e cantavam os últimos versos de uma apresentação inesquecível.
Pedro Pracchia pedropracchia@gmail.com
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