Segundo dia do festival contou com os ingleses do Muse, que exageraram na pose e no virtuosismo
Os horários do segundo dia do Festival Porão do Rock, realizado no estádio Mané Garrincha, em Brasília, sofreram grandes alterações em relação a programação original. Os alemães do Sick City não compareceram e algumas bandas foram trocadas de horário.
Gilbertos come Bacon abriu o festival no Palco Pílulas com uma hora de atraso, pra um publico bem reduzido que respondeu a todos os estímulos da complexa harmonia de percussões. O nome, uma combinação de termos populares de Planaltina, remete a uma distância do eixo social principal (quem esta por fora do que acontece "come bacon" e Gilberto poderia ser José ou João em outros lugares do Brasil). Influências diversas como maracatu e frevo e toda a relação desses ritmos com o hardcore, além do sertanejo e do pop, deram o tom da festa, na qual meninas dançavam na frente do palco. Com uma melodia no nível de um Zumbi do Mato acelerado e sóbrio, mereceu um público bem maior.
No primeiro show do palco principal, do grupo Vaai Thomaz no Acaju, o público era bem menor que na sexta-feira. A banda é formada por integrantes do Móveis Coloniais de Acaju, junto com Pinduca (Do Maskavo Roots e Proto!) e Gabriel Thomaz (líder do Autoramas). No repertório, versões do Little Quail and the Mad Birds (banda liderada por Gabriel nos anos 90) e do extinto grupo de rap Câmbio Negro. Este foi o primeiro show do projeto.
Logo em seguida, o Canastra, manteve o clima de bailes no outro palco, onde tocaria o Sick City. Abriu o show com uma versão elegantemente swingada do hino nacional. Com um repertório pautado pelo disco Chega de Falsas Promessas, os cariocas levaram um pouco do glamour dos bailes passados, sem deixar de lado o cover Viva Las Vegas, de Elvis Presley, que animou uma quadrilha improvisada próxima a grade da pista. A julgar pelo entrosamento e harmonia dos integrantes, não parecia que Rodrigo Barba, ex-Los Hermanos, começou a fazer parte da banda apenas esse ano. A banda chegou a engatar um cover de Black in Black, do AC/DC. Mas a produção, que cumpriu a risca os horários, teve de terminar o show. Foi o ultimo show do Porão com luz do sol. A banda The Pro foi uma grande "pílula". O espaço no festival veio como prêmio de vencer a seletiva. Nos curtos trinta minutos destinados ao show, a banda conseguiu empolgar o já fiel público que acompanhava cada verso das músicas.
Tom Bloch, do Rio Grande do Sul, tocou no Palco Pílulas. Mas a péssima qualidade do som foi abafada pelo palco principal na transição entre Canastra e Sapatos Bicolores, e o público acabou se dispersando. "Obrigado por tentar nos ouvir", agradeceu a banda ao final do show.
Sapatos Bicolores, que lança nessa semana o single pra download no site da banda, teve um público fiel que sabia de cor suas músicas. Durante o show, alguns ajustes no volume do som da bateria enquanto crianças corriam na frente do palco (uma área vip muito freqüentada por famílias foi um dos motivos que justificou o espaço entre banda e grande público por parte da produção). Não faltou o hit Garota Cor de Fogo no set list dos brasilienses, pra fechar o show morno da banda.
Com os rostos pintados de protetor solar, o Super Stereo Surf conseguiu bom público com seu som instrumental. Entra na categoria das bandas que mereciam um espaço mais respeitável. Os pernambucanos do Amp também sofreram com a mesa de som do Palco Pílulas, mas fizeram um show eletrizante e pesado, cheios de adrenalina e mensagens sem pudores. "É muito bom tocar num palco que chama 'pílulas'".
Em seu primeiro show em terras brasileiras, Papier Tiger empolgou um Mané Garrincha quase cheio. Mesmo sem baixo, e ora com chocalhos ora com percussão para acompanhar as guitarras, as melodias quebradas dos franceses conquistaram o público no primeiro contato. Um dos grandes shows da segunda noite.
Os argentinos do The Tandooris mandaram de cara um rock seco com ares de garagem. Não encontraram muito apelo entre a área vip, e muita gente começou a se deslocar pra pegar cerveja. Os que ficaram provavelmente já estavam bêbados.
Pela segunda vez no palco, Gabriel comandou o Autoramas, que disparou clássicos como Você sabe e Carinha Triste para um porão já lotado. Um dos mais consagrados frutos da cena do rock brasiliense dos anos 90, Gabriel e sua banda levaram um público fiel que cantava entusiasmado todas as canções.
A estratégia de divulgação da banda Janice Dolls era que, após o show, os 100 primeiros que entregassem o flyer da banda receberiam o CD de lançamento. O resultado disso foram mais de 500 pessoas se espremendo contra a grade do Palco Pílulas, para desespero da segurança, e muita gente ficou sem o seu disco.
O Mundo Livre S/A fez o melhor show nacional do festival, e confirmou que sabe bem o que o torna um dos melhores shows do Brasil. Fred 04 comandou o baile de samba muito bem construído e colocou todo mundo pra dançar ao som de seu cavaquinho muito bem acompanhado.
Pela segunda vez seguida no festival, o Supergalo seguiu a receita do rock simples e bem feito, com a competência do currículo de integrantes como Fred (ex-Raimundos) e Alf (ex-Rumbora). A versão de "Ainda é Cedo", do Legião Urbana, foi o ponto alto da apresentação da banda que ainda busca consolidar sua identidade, e quem sabe, não mais ter de ouvir o coro que pediu Raimundos nas duas edições do festival.
Da baiana Pitty, não se pode reclamar no quesito receptividade do público. A mais mainstream dos nacionais teve todas as músicas cantadas em coro, desde os hits Equalize e Máscara ao já tradicional cover de Chico Buarque, Construção.
Nos bastidores, Philipe Seabra questionava a pontualidade do festival. "Só quando tem banda gringa aqui eles cumprem horário!". E de fato a produção do Porão do Rock teve que correr para que o aguardado show dos ingleses do Muse começasse pontualmente.
Poucas pessoas assistiram ao bom show do Nancy, que encerrou as apresentações do Palco Pílulas, e logo todos correram para o principal. No horário marcado, o Muse entrou pra delírio dos brasileiros, que ainda agradecem como uma benção quando uma banda gringa vem pra cá e diz uma única palavra em português: "Obrigado".
Atração mais aguardada do festival, os ingleses estavam com tudo na mão para ser o maior show do Porão. Os canhões de luz verde apontados na direção dos olhos, somados a mescla de luzes vermelhas e prateadas tornaram a produção do show impecável, junto aos balões que espalharam papéis picados pela platéia. O setlist recheado com Plug In Baby, Butterflies And Hurricanes, Time Is Running Out e Supermassive Black Hole levou ao delírio os numerosos fãs da banda.
O único pecado do Muse foi exagerar no virtuosismo. Com algumas músicas em versões mais lentas, o que já desanima, ficou a sensação de que passaram do ponto por pouco, mas o suficiente para tornar a apresentação burocrática. Um ventilador colocado bem em frente ao vocalista Matt fazia seu cabelo subir e descer hollywoodianamente, num movimento plastificado como a interação da banda com o público.
Pedro Pracchia pedropracchia@gmail.com |