07/09/2008
M.Takara
Ocupado Como Gado Com Nada Para FazerDesmonta; 2008Finalmente em versão para não-iniciados.
Como multi instrumentista, Mauricio Takara esteve sempre envolvido com os mais diversos projetos, agradando a gregos e troianos – do Coletivo Instituto ao Hurtmold e/ou São Paulo Underground. Às vezes, são tantas participações em projetos dos mais variados que mal conseguimos acompanhar – a mais recente foi como produtor do ótimo samba de Kiko Dinucci e Bando AfroMacarrônico. Não é de se surpreender que esse sujeito sofra das mais diversas influências e que seu projeto mais pessoal, M.Takara, seja o mais sensorial possível. Só que, dessa vez, ele tenta elucidar um caminho que agrade a todos, já que não possui o compromisso do porte de um Hurtmold.
Além de tentar contextualizá-lo em palavras seria possível falar de sua obra matematicamente, como se ao traçarmos um paralelo entre seu projeto no início e o que é agora resultaria em uma variável com vetor crescente. Estaríamos colocando, então, sua obra musical em escala evolutiva.
É assim que tento definir
Ocupado Como Gado Com Nada Para Fazer, seu mais novo disco (ou EP?) de apenas cinco músicas. Mesmo tendo cerca de 15 minutos a menos que seu trabalho anterior,
Conta (2007) – disco cheio de altos e baixos, ou um “quase-morto” –, este sucessor atinge um patamar de sofisticação maior. Não temos mais o minimalismo praticado no homônimo – e saudoso –
M.Takara (2003) e nem precisamos tentar adivinhar se
Com Chankas e Jon (2005) era um novo Hurtmold com um nome diferente.
Ocupado Como Gado... dá um salto nisso tudo por ser muito mais completo, cheio de experimentações que remetem ao universo do hip-hop, tendo a base como único elemento retilíneo sobre as desconstruções experimentadas. Sua forma chega a dar uma ambientação agradável, deixando Takara muito mais à vontade para mesclar as sequënciações e programações com a própria voz – elemento muito mais utilizado nesse trabalho do que em todos os outros –, fazendo uma conversa apenas no nível dos samples eletrônicos.
Sendo assim, creio que o disco tem como um “objetivo” passar sensações, sendo elas quais forem. Com um porém. Toda essa orquestração eletrônica, metódica ou improvisada, não importa, chega a ficar aquém, principalmente no final. Por exemplo, com
Sinos, Cordas e Tambor, na qual só ouvimos a primeira batida após quase dois minutos da música, matando o resto de sua composição por uma falta de introdução mais breve, de melhor explicação sobre onde quer chegar
Mesmo escorregando, é importante dizer que o disco tem em cada uma de suas faixas sua identidade própria. A segunda
Tem Dessas, faz jus, de primeira, ao coco paraibano e pífanos unidos com as texturas eletrônicas; já a seguinte,
Tenta Ver, traz cânticos que parecem nordestinos, repetidos com loops, que deixam o sax de Rogério Martins falar mais alto. O baterista Richard Ribeiro mostra que sabe o que está fazendo, como em
Tanto Faz, ao mesclar ora sua essência orgânica à batida eletrônica, ora ao se contrapor a ela.
Este é o trabalho mais pop desse artista e seu projeto, que finalmente parece ter se desvinculando da experimentação cabeça (deixando-a apenas no São Paulo Underground, e que, infelizmente, só funciona bem
ao vivo), traçando um caminho mais agradável para aqueles que querem entender sua música.
Marcelo Santos Costa
marceloadsc@gmail.com