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10/09/2008
Festival Orloff Five no Via Funchal
Melvins e The Hives dominam festival realizado em São Paulo


O festival começou com o DJ Tittsworth – que também comandou as picapes entre uma atração e outra. Presença mais inútil do festival, um CD-R bem gravado resolveria o que ele fez: tocar apenas trechos de músicas, hora tirando os graves, hora os agudos. Não empolgou.

Depois veio o Vanguart, com seu show de sempre: competente, som da banda cheio, músicos bem entrosados e só. Os fãs cantavam junto – entre eles a bonitinha Mallu Magalhães, que circulou pela pista cantarolando as músicas do quinteto. Uma apresentação bem curta, do único artista nacional do festival, que não tinha muito a ver com as outras atrações da noite.

Plasticines

As Plasticines são de dar inveja. Inveja e um certo tipo de ansiedade... porque, ao vê-las tocando, latejava uma vontade honesta e incontrolável de subir no palco: se, não para pegá-las (abraçá-las ou soltar afagos ao pé do ouvido), no mínimo pra tirá-las de lá logo. Era uma confusão de sentimentos.

Não que elas sejam só lindas e uma porcaria completa; elas têm bom gosto. Quer dizer, imagino que tenham (hum); elas se divertem bastante no palco, dá pra ver que devem ter influências interessantes... e prefiro elas a, pelo menos, metade das bandas independentes daqui do Brasil.

Mas faltava alguma coisa. Som ruim na frente do palco? Sim, o som estava bem ruim... só funcionava lá pra trás, perto do bar. Mas ainda não era só isso. Pra explicar, vou voltar a falar das bandas daqui: elas se parecem muito com alguma banda indie brasileira: influências boas, diversão no palco e, a parte ruim, que é a homogeneidade de uma música pra outra. Nada soa muito original, parece tudo meio revisitado de um jeito muito reverente demais. Isso muitas vezes funciona – esse elo entre despretensão a feeling. Mas, a elas, ainda falta a intimidade com a música e com os instrumentos. Elas estão perto de ser uma banda preza, mas estão muito longe disso, ao mesmo tempo.

Aliás, foi forte essa sensação de "tão perto, tão longe"... elas, ali, lindas, tocando uma coisa a que estamos tão acostumados a ver nos clubes da noite paulistana... dá vontade de fazer uma jam session interminável. E era esse o clima: elas estavam ensaiando, parecia. Ensaio aberto das "babes" francesas.

Mas tudo isso não me impede de destacar o constrangimento a que elas foram obrigadas a passar: tocar depois dos Melvins, ali, foi um absurdo. Elas deveriam fazer a transição do Vanguart para os Melvins, no mínimo.

Vacilos à parte, foi um show divertido de se ver. Um pouco por perceber que nossas bandas independentes não são tão ruins quanto alguns propagandeiam por aí. Um outro tanto por ver que, sim, nossas bandas independentes são tão ruins quanto alguns propagandeiam por aí.

Melvins

O resumo é mais ou menos esse: poderia haver fãs de última hora, daqueles que adquirem preferências no susto do noticiário, de Hives ou Plasticines, mas não existia fã ocasional de Melvins na pista. Nêgo que foi de olho nessa banda sabia muito bem o que esperar, e foram poucos. Droga pesada e de circulação controlada - num mundo de tarjas vermelhas ou pretas, Melvins é cor de apocalipse - a banda se manifestou na forma habitual dos últimos dois anos: duas baterias siamesas no centro do palco, uma boçalidade sem tamanho e plenamente bem vinda.

A bateria dupla foi o motor dos dois últimos discos do grupo, (A) Senile Animal (2006) e Nude With Boots (2008), quando o duo Big Bussiness - baixo e bateria - foi convidado a se juntar ao guitarrista Buzz Osborne e ao baterista Dale Crover. Ao vivo, impressiona pelo peso, pelo delírio estético de assistir dois bateristas surrando as peças com um misto de sincronia e complementaridade incríveis, e pela modificação que a formação impõe à banda.


Nos anos 1990, aquela época em que um ou outro foi atrás do Melvins por ouvir Kurt Cobain pagar pau publicamente pra eles, seu som oscilava entre o hardcore blackflagiano e o peso enervantemente lento à la Sabbath, mas injetado por um senso sem limites de experimentação, sadismo, neurose e sarcasmo. Definição-padrão de som árido, pra não-iniciados, do tipo que não se colocava no toca-fitas do carro durante uma viagem.

Mas não foi isso que o publico viu. A inclusão da bateria adicional contribuiu pra mudança no som da banda. Ainda a quilômetros de distância de qualquer tipo de conceito relacionado a "viabilidade comercial", o Melvins se apresentou no limite da acessibilidade possível para eles e para o gênero (sludge metal?). A abertura com Nude With Boots, faixa-título do último álbum, foi a introdução perfeita ao tipo de performance que viria a seguir: desconcertantes passagens instrumentais percussivas, riffs pesadíssimos mas com um belo e sutil senso de melodia, vocais saídos de uma ala psiquiátrica em chamas.

Algumas músicas, como A History of Bad Men e Civilized Worm, ainda transitam por aquela zona de estranheza cultivada pela banda, de andamentos lentos e hipnóticos, sem sombra de refrão algum no meio do deserto. Havia, no entanto, contrapontos empolgantes, como The Kicking Machine, algo como um Led Zeppelin hardcore, e Billy Fish, o mais próximo do que se pode chamar de hard rock do século 21 possível de se ouvir por aí.

Como disse um amigo, parece que foram mais de uma hora de uma única música, uma ópera-rock de versos brancos. Sem "olás" ou "eu te amo, São Paulo", esse tipo de performance vazia repetida à exaustão em seguida pelo divertido Hives, o mestre King Buzzo só abriu a boca pra berrar e cantar um inexplicável hino norte-americano (copo de cerveja nele, mas o segurança viu o atirador...). Certamente não agradou a todos num País de firuleiros à la Robinho, mas entregou a apresentação mais bem executada, paudurescente (tirando as Plasticines, por motivos óbvios...) e genial da noite.

The Hives

Algumas bandas sabem pegar um jogo ganho e usar a platéia para aumentar ainda mais a vantagem, terminando a noite com uma goleada. É o caso do Hives, quinteto sueco que fez um impressionante primeiro show em São Paulo.

O visual engomadinho e o performático vocalista Howlin' Pelle Almqvist servem para deixar ainda mais visual o som da banda, centrado na bateria precisa de Chris Dangerous e nos riffs certeiros do guitarrista Niklas Almqvist.

Diferente do Melvins, o show do Hives teve tudo que o público brasileiro gosta de ver: vocalista que se atira no chão, sobe na bateria, abre a camisa; baterista e guitarristas atirando baquetas e palhetas para a platéia a todo momento; frases em português e juras de amor ao país.

No palco, a banda disparou músicas do último disco, como Return The Favour e You Got It All... Wrong e hits como Main Offender, a.k.a. I.D.I.O.T., Die Alright. O final apoteótico, com canhões de luz e o público cantando junto ficou com Hate To Say I Told You So e Tick Tick Boom.

Um show que se tivesse passado pelo Brasil em 2002, seria comentado até hoje. Como infelizmente é comum por aqui, antes tarde do que nunca. Os fãs viram um belo show e quem foi para ver se a banda ainda era tudo aquilo, certamente se surpreendeu.

Texto:
Daniel Lima (daniel@bananamecanica.com.br)
Thiago Kazu (kazu@bananamecanica.com.br)
Davi Rodriguez (davidavi@gmail.com)


Fotos e vídeos:
Thiago Kazu

::Veja mais fotos no Flickr.



Melvins - The Kicking Machine



The Hives - Hate To Say I Told You So















 

 

 


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