02/10/2008
Sopa
Sopa
independente; 2008
Ludicidade e a arte de falar sobre nada
Estão montando outro parque itinerante naquele terreno baldio do final da rua e seu irmão mais novo já lhe recrutou pra levá-lo na estréia. Você sabe que não poderá faltar a pipoca doce mais vermelha, grudenta e cheirosa, o ursinho esquisito que você vai ter que conseguir atirando em garrafas encardidas, as muitas luzes amareladas iluminando e as fluorescentes entorpecendo. Tem sempre o medo do pirralho cair do minhocão enferrujado e, no fundo, você também está ansioso pelo frio na barriga que só a cadeira pensa da roda gigante lhe dá. Quando chega em casa a sensação que aquelas cenas bizarras lhe causaram só é decifrada se der play em Sopa, aí o carrossel de imagens lúdicas lhe escorrega fazendo cócegas garganta abaixo. É o mais próximo que pode chegar da felicidade que seu irmãozinho sentiu ali.
As brincadeiras que o Sopa propõe nada de têm de imaturas, é o surrealismo das coisas simples que, sinto muito, as mentes poluídas de conceitos e certezas não conseguem enxergar. Estão longe dos clichês do populacho-mambembe-mainstream do
TM, mas também não é a vanguarda cabeçuda de
Clara Crocodilo. Permeando entre estes, Sopa está mais para a psicodelia despretensiosa de Man Man e as cores circenses a que Gogol Bordello nos remete.
Violino, flauta, xilofone, trompete, violão, percussões e uma bebida doce. A festa ébria que soa numa mistura de ritmos tradicionais seja nas alfaias de maracatu em
Mato Vivo que cai num rock grooviado, ou no boogie de
Cabaré e na marchinha de
Carrossel, com cara de caixinha de música e com direito ao barulhinho da chave dando corda, nenhuma música cai no comum ou numa criatividade previsível.
Armando climas pra contar histórias, o Sopa ousa em vozes escrachadas e expressivas interpretando uma retórica que gira em si mesma. Falar sobre nada, com arte, é construir letras em que o conteúdo pode não fazer o mínimo sentido, ou não passar nenhuma informação relevante, mas mesmo vã a letra se faz indispensável à música. Sopa joga com isso em letras minimalistas, de especificidades delicadas como em cantos de roda – geralmente melhores na voz de Ivan, do que de Madrid (vocalistas). "O mosquitinho miudinho saia da minha cabeça / mosquitinho saia logo, saia logo me esqueça!" em
Mosca, como também numa adaptação daquela "Hoje é domingo, pé de cachimbo..." em
2234 com associações ainda mais desconexas:
"2,2,3,4
Não há pedra em meu sapato
A pata no rio, a cobra no mato
Anel é de ouro, o ouro é valente
Quem anda pra trás, não anda pra frente
5,7,8,6
Depois da cachaça o uísque escocês
O lobo é grande, mas não é 3
A roda é gigante, a água é viva
Quem carrega os outros é locomotiva"
Dentre vocalises brincalhões, pegada visceral e imagens que reinventam folclores, a banda curitibana é um grito corajoso em direção a essa nova música cansada de títulos e com vontade de simplesmente ser. Seu destaque é nítido quando percebe-se o quão seguros eles soam e talvez seja a ânsia e ao mesmo tempo despretensão que dê tanta força pra música deles. Vista seu melhor figurino que a bilheteria já abriu.
Agatha Barbosa
agatha @bananamecanica.com.br