Guizado
Punx
Urban Jungle Records; 2008
Estímulo é a palavra certa
Por trás de um projeto pretensioso é fácil encontrar referências expressivas que quase (ou sempre?) inundam os ouvidos mais desavisados e pouco ou nada comunicam a seus apreciadores, fazendo a salada se tornar tão subjetiva, a ponto de coibir o que há de mais interessante na música instrumental: a sua estrutura.
Guilherme Mendonça (aka Guizado) compreende esse fenômeno e apropriando-se de um sem rumo de influências (basta imaginar que ele participa de diversos projetos, assim como o seu aliado M. Takara), abre sua discografia pessoal com Punx, que, por associação nominal, funciona pela simplicidade dos seus elementos. Habitado por uma veia trazida do acid jazz, mais precisamente as incursões de Miles Davis pela eletricidade e percursões afro, sua sonoridade extrapola limites entre o que há de cabeçudo e, em linhas gerais, erudito por natureza, e acaba mergulhando no mais sensível do estilo. E tudo isso sem cair na incompreensão de um calhamaço de solos de trompete e batidas desordenadas.
Lá pela metade do curto disco a impressão que se tem é de uma proposta não definida. Fica na impressão. Logicamente lá pelas tantas cabe observar que o abismo não é dos mais fáceis. Não que você vá se entusiasmar logo numa
primeira audição.
Minunciosamente, elementos novos são apresentados e surgem códigos vindos de praias passadas, como a bateria em loop de On the Corner, ou no noise exagerado e descontínuo. Alguns minutos depois, ainda na primeira audição, a informação é o que menos se preza, o estímulo toma conta e o contato, antes tão distante, se torna quase tátil. Basicamente a estrutura não muda, varia conforme a arquitetura explosiva: da guitarra, em expansão em Miragem, e sorrateira em Rinkisha, ou então nos multiplos sinths em Sagitariu's Dream. A levada é, assim, sensorial. Os elementos se repetem sem constrangimento e, ora diminuindo, ora crescendo do começo ao fim das faixas, acabam por fim traçando seu tema no desenvolver do clima.
Ainda sim, há quem possa dizer que toda essa experimentação é injustificável.
Pois bem, prefiro crer que por trás dessa mirabolante expressão, ainda exista um deslocamento para um espesso virtuosismo que se destaque naqueles momentos de catarse sonora. Aí pouco importa quem é quem no jogo instrumental, do controle dos pedais à afinação do trompete. É um espaço em que o autodidatismo deixa de ser aquela coisa chata e mostra-se ser definido e pensado durante o desenvolvimento de um clímax, previamente elaborado e bem ensaiado. Herança elegante que menos parece do hip-hop e pende mais para o pós-rock.
O disco pode te enganar, mas parece que até essa farsa é necessária. E não que o disco seja aquele que tire leite de pedra; ao vivo, se mostra ainda mais orgânico e com algo a dizer. A cumplicidade e o sincronismo dos integrantes é o que mais impressiona.
Porém, se com todos esses estímulos e cartadas sonoras Punx não te diz coisa alguma, com certeza serve no mínimo para fazer imaginar, mesmo que seja um borrão bem feio.
Renan Abreu
renanabreu89 @gmail.com