Marcelo Camelo
Sou
(Sony BMG/Zé Pereira; 2008)
O artista só, moldado pela adoração alheia
Disse o Nelson Rodrigues: "A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem." A nobreza da vaia soa melodrama rodrigueano, mas a idéia valiosa é a da corrupção - no sentido de modificação das características originais de algo - pela adulação. E, se vamos adiante com a formulação, nenhum objeto de estudo melhor que Marcelo Camelo, cujo Los Hermanos definiu a marca a ser batida de idolatria indie no País, ao lado de Rodrigo Amarante.
A título de tese: afagados e soterrados por quantidades descomunais de amor, fanatismo e expectativa, os dois compositores da principal banda do cenário alternativo brasileiro encerram-se fundo numa mistura da própria personalidade musical com a máscara pré-moldada pelos fãs e sua tendência a traçar perfis psicológicos a partir de letras, melodias, trejeitos de palco e respostas atravessadas a repórteres de cadernos de cultura.
Nesta narrativa coletiva, se Amarante foi o circense solar e a face extrovertida do grupo, Camelo, por contraste dramático natural, como em qualquer filme de duplas yin-yangescas de policiais, seria o sambista noturno e introvertido. Bem ou mal, é de onde partimos quando ouvimos "Sou" (ou "Nós" se viramos o encarte de cabeça para baixo; divirta-se), primeiro disco solo de Camelo.
Um álbum idiossincrático, para dizer o mínimo - o que é, pelas minhas contas, elogio de grande porte. Porém, é um disco fluido e disperso como uma brisa de beira-mar num dia frio, para usar um cenário caro ao músico. Trata-se do desagüe aparentemente lógico das canções de Camelo no Los Hermanos: do primeiro ao quarto CD, as composições deixam de ser "sobre" alguma coisa mais ou menos definível e tornam-se odes aeradas à morena, ao barquinho, ao andar com fé; mais lacunas que preenchimento. Em seus piores momentos, vagas e afetadas. Nos melhores, a um passo de pequenas epifanias melódicas e melancólicas. Afinal, é o artista "só" consigo mesmo e com temores de solidão, separação e esquecimento. Mais Marcelo Camelo, dirão os fanáticos-psicólogos, impossível.
A solidão, aliás, é o grande eixo emocional do álbum. Segue desde o moderadamente patético em "Doce Solidão" ("Posso estar só/Mas sou de todo mundo", uma variação Tribalista) ao sintético sublime e metafísico de "Passeando", bela canção de quatro versos: "E lá vai Deus/Sem sequer saber de nós/Saibamos pois/Estamos sós". Mais do que solidão, Camelo parece cantar a desolação - o refúgio litorâneo e as considerações sobre grãos de areia, a nostalgia dos bailinhos de carnaval, as incertezas quanto ao futuro.
Grave e deliberado, contemplativo e contido, um Marcelo Camelo inteiramente só ao violão seria, a partir do DNA geral de "Sou", infalivelmente narcoléptico. Acompanhado do excelente grupo Hurtmold em quatro faixas ("Téo e a gaivota", "Tudo Passa", "Mais Tarde" e "Menina Bordada"), o álbum e o ouvinte respiramos. Essas faixas são, de longe, os momentos mais interessantes do disco. É onde a execução e os arranjos tomam direções inesperadas, o gosto de Camelo pelos sambas ancestrais e pela placidez de Caymmi ganham estrutura óssea moderna. As outras parcerias do álbum - Mallu Magalhães em "Janta", Dominguinhos em "Liberdade", a pianista Clara Sverner nas instrumentais "Saudade" e "Passeando" - mostram-se igualmente acertadas e, em seu conjunto, sugerem a seguinte constatação: Camelo funciona melhor em diálogo.
Isso nos traz de volta à tese. Quando consideramos a linha evolutiva de Marcelo Camelo como compositor no Los Hermanos e extrapolamos sua trajetória para a carreira solo, a longa e sinuosa curva o coloca numa área de expectativas próxima do real resultado de "Sou": introspectivo, nostálgico e agridoce. Ou, para fins sarcásticos, algo próximo do negativo do disco do Little Joy. A responsabilidade, em parte, é de vocês.
Daniel Lima
daniel @ bananamecanica.com.br