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19/12/2008
Seychelles
[Mondo77; 2008]

OK Computer à brasileira


Desde o fim das atividades do Laboratório SP, São Paulo não tinha uma banda que traduzisse tão bem sua vida urbana em música, até agora nesse segundo disco do Seychelles. O primeiro disco do grupo, Ninfa do Asfalto, arranhava o tópico, mas agora nesse segundo, Nananenem, o turbilhão da metrópole é o tema principal de letras e canções, misturando estilos e influências de toda sorte. 

No primeiro álbum, o Seychelles era uma banda de rock que arriscava uma ou outra pitada de estilos musicais diferentes. Agora, eles misturam com maestria seu rock psicodélico com punk, música eletrônica, jazz, MPB, às vezes numa mesma composição. Mesmo que por vezes as músicas pareçam quebradas, de “difícil digestão”, essa mistura sonora serve de metáfora e trilha para a famigerada vida na metrópole cosmopolita. 

As variadas influências musicais também se devem ao fato dos integrantes do grupo participarem de outros projetos. Com músicos experientes que vagam entre o pop do Ludov até o experimental do Mamma Cadela, é de se imaginar uma vasta gama de opções, que acaba gerando a musicalidade diversificada, e um instrumental afiadíssimo.  

As letras do disco relatam a rotina de um morador da cidade grande, enclausurado pelo trabalho (Funcionário Padrão); decepcionado com a deturpação de suas opções de lazer e cultura, como a música (Punk Modinha), o cinema (Hollywood) e o esporte (Venus Sharapova); conformado e amortecido com a violência e miséria alheia (Asa do Dia); e que tem problemas familiares (Meu Irmão É Louco) e pessoais (Ansiedade e Obsessão). Olhe para o espelho ou para o lado, serve para qualquer um de nós. Versos como "Essa rotina viciosa cobra um preço / Leva sua alma pro inferno" e "Toda frustração vira artefato de guerra / No sangue dessa gente o sofrimento é em dobro" escancaram a situação. 

A canção chave do disco é a belíssima No Caminho de Shangri-la, que através de sua melodia fala de uma pessoa que sempre tentou “reunir conhecimento”, mas se vê diante de uma “crise de valores”, que “só o amor pra libertar”, concluindo de forma bonita, sem ser piegas. No Caminho de Shangri-la concentra o tema do disco, no verso "Eu vivo em São Paulo e todo dia assassino a razão". Mas é claro que ao cantar sobre São Paulo, o Seychelles canta sobre qualquer cidade grande, e sobre a tal da vida moderna, como um OK Computer à brasileira. Guardadas as devidas proporções, Nananenem serve como retrato magistral de nosso tempo conturbado. 

Wilson Farina
wilson @ bananamecanica.com.br

 

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