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19/12/2008
Iara Rennó
Selo SESC; 2008

Do fundo do mato virgem aos emaranhados elétricos. 



Como as outras, Iara Rennó (DonaZica) também desenvolve agora um trabalho solo. E o que a menina estará fazendo? Macunaíma?! A primeira música que ouvi, na sede da minha curiosidade, me estarreceu por completo: Quando Mingua a Luna, que abria o My Space dela antes mesmo do lançamento do álbum, e na qual reconheci de imediato a presença do grupo de percussão corporal Barbatuques, entre trompetes, respirações, sons de coisas quebrando e vozes aliterantes que se misturavam aos instrumentos cantando "Espinho que pinica de pequeno já trás ponta", num ambiente de enorme expressionismo sombrio e intimidador.  

Daí em diante só surpresas. Unidade e temática são elementos delicadíssimos para se desenvolver num álbum. Às vezes esses ingredientes podem acabar criando um disco com prazo de validade e contexto específico demais. Iara conseguiu driblar todas essas armadilhas realizando uma obra muito corajosa e que deixa de queixo caído dos ouvidos mais limpos aos críticos literários mais cabeçudos. 

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, dispensa grandes apresentações. O livro de Mário de Andrade, que comemora os 80 anos, tido como a caricatura do personagem brasileiro por um todo, é das mais elaboradas e certeiras obras da nossa literatura. Musicá-la parecia um trabalho de certa forma fácil e óbvio, afinal Andrade já escreveu o texto com certa rítmica e cheio de melodias poéticas. Mas mais do que isso, para que o álbum soasse verossímil, Iara Rennó tinha que transparecer a atemporalidade literária. Personagem modernista, Macunaíma nasce negro, vira índio e depois branco, atravessa todo o país num pulo, desde as aldeias mais afastadas ao caos metropolitano. Mas isso em 1928. E agora como seria o nosso arquétipo?  

Primeiro deixe de lado todas as informações hitórico-literárias e esqueça um pouco tudo que seus professores lhe falaram sobre modernismo. Nenhuma dessas informações técnicas que se lê na Wikipédia é necessária para absorção do álbum; e este é seu ponto forte.   

Iara teve tal idéia quando ainda cursava letras e, por mais fidelidade que ela tenha dedicado às palavras do autor, o que contou mesmo foi sua experiência na música, explorando o que expressa a identidade do brasileiro hoje, e por mais que carimbó e funk carioca não estejam presentes no disco, Iara conseguiu o feito.   

O mérito não é só dela e de Andrade. Teve como produtores Siba, Kassin, Moreno Veloso, Benjamin Taubkin, Beto Villares, Maurício Takara. Contou com a participação de Tom Zé, Arrigo Barnabé, Dante Ozzetti, Bocato, Guizadoman, Anelis Assumpção, Família Espíndola, Tiquinho, Andréia Dias, entre outros, pois essa só a metade da lista assustadora de nomes.   

Afrodelismos, dub, folclore brasileiro, trip hop, narrativas soltas e ruídos eletrônicos que ressoam nos ocos dos tocos. Ingredientes que nos ambientam em cenários múltiplos. Em Conversa, tida com Tom Zé, o violão fisgando as cordas que dá lugar aos ruídos de compassos quebrados de um corte contemporâneo de hip hop intercalado ao djembê, três elementos fraseando de forma perturbadora em que é possível tanto se sentir correndo na mata fechada como no meio da marginal lotada. Quando Mingua a Luna explora o outro lado dessa perturbação mas caminha num sombrio segredando malícias da noite.  

Nesse álbum os contrastes brilham pois, do outro lado das sombras, com a flauta quase uníssona de Nina Macunaíma é possível colocar as crianças pra dormir e, quase em r&b, Naipe exala uma sensualidade adolescente quase proibida e de servidão lamuriosa numa soma de instrumentos em tamanha harmonia onde nenhum sobressai o outro.  

Macunaó.peraí.matupino (outro título proposto pela compositora) é daqueles ainda a influenciar muitos Macunas pelos brasis do mundo. 

Agatha Barbosa
Agatha @ bananamecanica.com.br

 

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