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20/12/2008
Discos Esquecidos 2008

Com os discos brasileiros sendo lançados das mais diversas formas (de links que parecem oficiais surgindo no orkut ao tradicional lançamento por gravadora) e com os mais diversos graus de organização e divulgação por parte de bandas e produtores, nada mais difícil do que estar, em cima da pinta, fazendo a cobertura e o difícil e trabalhoso exercício da crítica de cada CD que nasce. Mas, se nosso esforço de reunir e resenhar, num só lugar, discos lançados pelo país nem sempre atinge seu objetivo, a vontade do Banana Mecânica de levar esse mapemaneto o mais próximo possível da plenitude nos reserva este espaço para os álbuns que, por algum motivo, ficaram perdidos em nossas pilhas.


Carlos Careqa
À Espera de Tom [Barbearia Espiritual Discos]

Uma coleção de covers (versões, "homenagens"?) de canções do cultuado compositor americano Tom Waits, que também é cantor e ator, como o autor desse disco, o catarinense Carlos Careqa.

Careqa mimetiza os arranjos, atento aos barulhinhos e à voz rouca de Tom Waits durante todas as 14 faixas, escolhidas de diversas épocas diferentes. É no resultado final de identificação com as traduções oferecidas às densas letras de Waits que está o segredo deste curioso disco. Estudioso de Waits há anos, Careqa não teve medo de fugir da tradução literal, optando ora por uma aproximação de enredo (como em Garota de Guarulhos inspiarada em Jersey Girls), ora por acomodações fonéticas (Chocolate Jesus vira Guaraná Jesus). Ou seja, mais do que atentar a fundo ao caráter "versão" desta seriíssima brincadeira, é melhor entendê-lo pelo aspecto inusitado, quase de poesia de teatro infantil deste disco. Ele definitivamente não foi feito para ser visto do lado de Jaguadarte, a encantadora tradução de Augusto de Campos para o poema Jabberwacky, de Lewis Caroll em Alice Através do Espelho.

No mais, dá pra dizer que ele se ogulha da cafonagem fina inerente à obra de Tom Waits (aquele folk lo-fi com clima de cabaré), abusando, nas traduções, de letras bizarro-dramáticas ("Mas se eu te vejo à noite/ Num trem de metrô/ Toda Noite/ Só dá ela no corredor", em Num Trem de Metrô, versão de Downtown Train) e acentuando elementos melódicos (vide o coral "Xá-lá-lá-lá", na mesma música).

Definitivamente, um disco para super inciados em Tom Waits se divertirem por diversas audições.


Luis Fernando Santos
luis @ bananamecanica.com.br



Curumin
Japan Pop Show [YB]

Equilibrado sobre três músicas realmente acima dos padrões - Compacto, Esperança e Magrela Fever - Japan Pop Show, segundo disco do paulistano Curumin, segue a linha Bebeto - emula o mestre com competência, mas sem muito brilho. O mestre, no caso, lá como cá, é o Jorge Ben setentista. Mas como Curumin é cria dos anos 90/00, ao samba-rock rasgado por alguma psicodelia ele adiciona balanços de outras procedências, como o dub de Dançando no Escuro ou o acento rap/funk (carioca também) em diversas outras faixas.

Se o resultado não chega a empolgar como conjunto, também não vai à vala comum do groove genérico - mérito de uma inteligência acesa na escolha de referenciais que, um pouco mais azeitada, pode encontrar sua melhor forma criativa em um próximo disco (e em shows é simplesmente demolidora - não à toa, Curumin foi onipresente nos festivais independentes de 2008).


Diego Franco
diegortv @ gmail.com



Forgotten Boys
Louva-a-deus [independente]

Lembro do começo dos anos 2000 com um disco em especial. Era Gimme More, lançado por um trio chamado Forgotten Boys, até então desconhecido. Algumas apresentações na noite paulistana e o recado estava dado: eram tão músicos quanto o disco parecia mostrar. Sabiam apresentar músicas com apelo pop com aquele pé no proto-punk de personalidade o bastante para cantar em inglês.

Algum tempo depois, veio o flerte com celebridades, alguns clipes na grade da MTV e apresentaram o ponto máximo de sua discografia, Stand By The D.A.N.C.E., um convite luxuoso para o casamento desses caras com o mainstream. Sonhar alto às vezes não faz mal, mas se o que você espera não acontece, cuidado com a queda. O sucesso de público nunca veio, e eles viraram uma espécie de vítimas do que ajudaram a moldar: o underground.

Só assim para entender Louva-a-deus, um disco que até na capa traz o peso de reverenciar as diversas influências do quarteto – podemos ver Bob Dylan, Rob Tyner, Mick Jagger e Bob Marley, entre outros. Problema nenhum em fazer referências a seus músicos prediletos, mas escolheram o disco errado para isso. A seleção fraca das canções parece estar mais preocupada em mostrar que a banda ainda está ativa do que o fato de apontar para alguma direção.

Enquanto as letras adolescentes – “Mais do que pra ela Fiz tudo por mim/ Disse que era dela, aaah!/ Olhei pra janela, fui até o fim/ Disse que era dela, aaah!” – podem render comparações duvidosas, é difícil imaginá-los mantendo a mesma pose de bad-boys após todos esses anos. Se não conquistaram o mundo com o disco anterior, não é com a esquizofrenia desse que vão conseguir.


Marcelo Santos Costa
marceloadsc @ gmail.com



Orquestra Contemporânea de Olinda
Orquestra Contemporânea de Olinda [Som Livre]

Tristeza não tem fim, felicidade sim, já dizia Vinícius de Moraes. É nesse tom que os doze integrantes da Orquestra Contemporânea de Olinda realizaram suas composições melancólicas ao som de jazz com pitadas de regionalismo pernambucano. 

Logo de cara percebemos que não estamos diante de uma orquestra convencional, já que os instrumentos de sopro se combinam ao ritmo de uma guitarra, baixo e bateria, numa influencia clara ao mangue beat – daí o “contemporânea” que o coletivo adota. Mas essa é apenas uma de suas facetas, já que a variação dos instrumentos – que vão de trombone, sax, trompete e tuba – auxiliam na construção sonora que mais se aproxima de um afro-beat e frevo.  

Esses ritmos fazem o equilíbrio certeiro ao longo do disco, transformando a tristeza de muitas letras, como em “Canto da Sereia”: “Eu vi a sereia cantar / A melodia era triste / E me fez chorar”, em alto astral, sem soar piegas. Outro fator que ajuda são os riffs elaborados de Juliano Holanda, que muitas vezes comandam o ritmo das músicas, como em “Brigitti” e “Não Interessa Não”. Em outras, as cordas de sua guitarra apenas acompanham as partituras dos companheiros.  

Parte então da costa marítima de Olinda, próxima à “Meca” musical de Recife, um dos mais belos registros de estréia de um grupo que mescla folclore com personalidade. Acrescente mais algumas linhas à história do mangue beat.


Marcelo Santos Costa



Rafael Castro
Amor, Amor, Amor [independente]

Dos cinco discos já lançados por Rafael Castro, Amor, amor, amor é o mais representativo da sua expertise – a invenção com as convenções. Na mesma medida em que o rock brasileiro setentista de cantar junto (sua matéria prima) pode hoje soar datado, Rafael Castro aciona um talento criativo de grande alcance pra anular qualquer naftalina. É um tal de finas ironias e grossos sarcasmos na boca de personagens com verniz literário que serestas de moleque roqueiro como Deus, Se Me Pagarem e a faixa-título se aproximam da tradição trovadora e ácida de Jards Macalé e fazem dele um dos compositores mais interessantes – pela inteligência autoral – do novíssimo rock brasileiro.


Diego Franco


 

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