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06/02/2009
Tom Zé
Biscoito Fino; 2008
  
Compositor recusa a morte e dá (mais) uma reviravolta em suas investigações musicais



Aqui expurgo um medo que tive desde 2006: temia que Danç-Êh-Sá fosse o último álbum de Tom Zé. Eu estava errado, claro, mas o seguinte pensamento fez muito sentido à época: Tom Zé passava a barreira dos 70 anos e suas composições, vistas em perspetiva, ficavam cada vez mais abstratas. Sempre pareceu claro que as aliterações de Dor e Dor, de 1972, evoluíram para as experimentações fonéticas de Jimi Renda-se/Moeda Falsa em 2000 ("Guta me look mi look love me/ Tac sutaque destaque tac she"). E, naquele momento, parecia claro também que Estudando o Pagode (2005) havia preparado o terreno - com seus barulhinhos etéreos, coros estranhos para o ouvido e letras com mais aliterações e jogos de palavras do que nunca - para o último álbum de sua carreira, Danç-Êh-Sá, todo instrumental, orgânico e difícil de captar (o que Tom nega; para ele seu som é pop para as massas). Enfim, o fechamento ideal para uma carreira hoje celebrada, mas essencialmente exótica e conturbada.  
  
Eu estava errado. Meu raciocínio parecia coerente, mas desconsiderava o pricipal tempero da carreira de Tom Zé: a incontinência de criatividade. Seu novo disco, Estudando a Bossa Nordeste Plaza, nega qualquer linearidade em sua obra (ou afirma sua intrínseca não-linearidade, como queiram).  
  
Primeiro, nega a linearidade porque voltam os vocais. E, mais do que brincar com os sons, aqui eles trazem recados fortes sobre um estilo delicado para o passado e especialmente para Tom Zé: a bossa nova, a inovação musical que mais influenciou o compositor, segundo ele próprio. Em João Nos Tribunais, Tom Zé chega a falar que João Gilberto seria vencedor certo se movesse processos judiciais contra artistas de samba-canção que tiveram músicas tornadas famosas pela sua gravação "desafinada, sem ritmo", de "ventríloquo".  
  
Segundo, afirma a intrínseca não-linearidade pelo aspecto individual de cada música. Em 13 das 14 canções há participações especiais; de cantoras da nova safra como Tita Lima ou Mariana Aydar ao talking head David Byrne (que também compõe parte da letra de "Outra Insesatez, Poe!", com belíssimos insights de tradução da letra original). E cada uma delas é inspirada livremente em uma obra de outro artista; desde um texto de Contardo Caligaris a uma crônica de Carlos Heitor Cony, sem nunca especificar qual, funcionando todas mais como uma dedicatória.  
  
Esse jogo de linearidade/não-linearidade ganha clareza quando percebemos que, em todas as canções, é facilmente identificável o DNA de Tom Zé. Seja pelas aliterações cheias de humor nos vocais, os barulhinhos, os coros de vozes femininas (muito presentes também em Estudando o Pagode), pelos sons de quebra que parecem guitarras sampleadas (em uso desde o clássico Estudando o Samba, de 1976). A única a se destacar é justamente 'João Nos tribunais', toda em ritmo de Bossa Nova e com voz somente de Tom Zé.  
  
No mais, não espere aprender de Bossa com o disco. Não tem pretensão didática, não fala de história; vem para inquietar. É provocador, mas não se furta a festejar o ritmo inovador que formou uma geração de músicos no Brasil e influenciou o mundo.  
  
Talvez seja isso: uma grande celebração, uma homenagem, com suas devidas espinafradas, especialmente aos descrentes inciais da Bossa; uma sonoridade sublime, ao mesmo tempo pop e sofisticada (já viram por aí entrevistas de Tom falando de detalhes de cada acorde de suas composições?); de uma delicadeza ímpar (que melhor jeito de falar de um estilo tão delicado que dispensava a palheta para se tocar o violão?); e torta, como só podia ser. Torta como são a Bossa Nova e Tom Zé.  
  
Luis Fernando Santos  
luis@ bananamecanica.com.br

 

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