De forma descontraída, o vocalista do extinto Violins (GO), Beto Cupertino, fala ao Banana Mecânica sobre expectativas da atual carreira solo, no projeto voz e violão Perito Moreno.
Ainda em fase de ensaios, Cupertino revelou que está de banda nova com remanescentes de seu grupo goiano, ainda sem nome.
Enquanto a estreia não acontece, o músico lança o segundo disco do Perito Moreno, agora voz e piano, previsto para março. Saiba mais sobre estas e outras histórias na entrevista abaixo.
Banana Mecânica: Perito Moreno é só voz e violão, né? O projeto lembra as músicas em versão demo da sua ex-banda, Violins, que você mesmo soltava na comunidade do Orkut. Beto Cupertino: O primeiro volume foi voz e violão, o segundo será voz e piano.
Será algo um pouco como A Redenção dos Corpos, em que o primeiro volume completa a ideia do segundo, mas desta vez em dois discos? Não, não.. Não existe nenhum conceito de complemento. Este projeto é bem descompromissado. Apenas será uma outra leva de músicas, que agora serão tocadas ao piano.
Imagino que você sempre deva ter composto na base voz e violão para depois transformar em rock como o do Violins. Há diferença quando se segue uma carreira solo? A principal diferença é que a música já nasce pronta. Eu a lanço bruta, do modo como a compus, sem arranjos e instrumentos em cima. A ideia é esta: apresentar a música bem crua, apenas com melodia e uma base acompanhando.
Suas composições voltaram a ser em inglês, como no primeiro EP do Violins, Wake Up And Dream. Você tem mais facilidade de compor em inglês ou é uma forma de fazer sua música mais universal, mais compreendida por todos? As duas coisas. Tenho mais facilidade de compor em inglês, principalmente para criar melodias e, ao mesmo tempo, as músicas são universais, podem ser compreendidas pelo mundo todo praticamente. Mas ainda componho em português, com a banda nova que montei com os remanescentes do Violins. Não parei de compor em português.
Fala sobre esta banda nova. Já tem um nome? Quem do Violins está contigo? Há mais músicos envolvidos? Vocês já estão ensaiando? Há um estilo musical que a banda pretende seguir? Já é possível ouvir músicas deste projeto? Ainda não tem nome, estamos ensaiando e produzindo um disco que deve ser gravado em meados do ano. A banda ainda conta com o Pedro e o Thiago que eram do Violins, mais o baterista Zé Junqueira. Ainda não há gravação para ouvir, mas a formação da banda é diferente, com dois teclados, bateria e baixo.
Você pretende continuar a fazer turnês com seu projeto solo ou o seu projeto com os remanescentes do Violins? Depende de convites. Estou disposto a fazer shows com ambos, se houver algum interesse.
Como foi sua concepção e inspiração das músicas, tanto para voz e violão quanto para piano? A idéia foi gravar tudo ao vivo, tocado e cantado ao mesmo tempo, como num show, captando o registro com dois microfones para que tudo ficasse o mais visceral possível. Será assim também com a gravação do volume com piano e voz.
Você saiu de uma banda que utilizava instrumentos básicos de rock e, muitas vezes, criava um som pesado. Agora, em carreira solo, conta apenas com sua voz e violão, no que pode ser tachado como algo mais puxado para o folk. Entre as principais influências para este projeto você destacaria artistas folk ou ainda há preferência por um som mais pesado? Não me sinto um artista de folk nem influenciado por folk. As músicas são simples, baseadas em melodia, não têm uma levada muito folk ao meu ver, até porque nunca tive influência deste estilo forte o suficiente para me motivar a fazer um disco do gênero. Eu gosto de bandas que sabem trabalhar melodia, seja vocal ou instrumental, que gostam de harmonias, sejam elas densas ou não.
E em relação à segunda parte, de voz e piano, há alguma referência explicita, algo que você tem ouvido bastante para basear sua produção? Não, tenho feito espontaneamente mesmo, compondo as músicas quando me dá vontade e inspiração, não está baseado em nada especificamente.
Ainda pode-se esperar músicas com um pé nos dilemas político-sociais, como Terrorista Justo e Saltos Ornamentais Árabes para Treinamento de Atiradores Americanos? Creio que sim. Vira e mexe eu escrevo sobre estas coisas. Se me der na telha de escrever sobre temas assim, vou escrever, não sigo uma fórmula ao escrever. Normalmente as coisas saem naturalmente.
Em dezembro do ano passado, o consultor jurídico João Carlos Muller, da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), disse que P2P [rede de troca de arquivos] é a desgraça do direito autoral. Como músico, você é a favor ou contra disponibilizar seu trabalho gratuitamente para download? Sou totalmente a favor, tanto é que disponibilizei o último disco do Violins na íntegra gratuitamente na internet. E do meu projeto solo também.
Com o Violins não existiam as ditas “músicas de trabalho” para serem tocadas nas rádios, e ainda assim foi uma banda que arrancou elogios da crítica especializada. Você pretende manter esta postura? Sim, sempre fomos uma banda que faz discos e dá importância ao disco como um todo e no seu conceito geral. Não teria sentido escolher "música de trabalho", até porque não somos uma banda que toca em rádio ou TV.
Alguns críticos consideram o Violins como uma banda injustiçada, que não teve o espaço que merecia. O que você acha disso? Acho normal o espaço que tivemos, não fomos uma banda com potencial para tocar na Malhação, nem no playlist das rádios. O tipo de música e letra que fazíamos não era de viés popular. Nunca fizemos um clipe, por exemplo. Preferíamos investir em discos. A gente teve o espaço que mereceu.
No disco Tribunal Surdo, a música Grupo de Extermínio de Aberrações recebeu críticas pesadas – chegando a ser censurada em uma rádio local de Goiânia. Você até foi denunciado no Ministério Público por alguém chamado “Mão Branca”. Que fim teve esta história? Tornou a música mais interessante e procurada. De resto, não deu em nada.
Em outubro do ano passado, o produtor musical Rick Bonadio criou polêmica ao dizer em uma entrevista que a atual cena independente é péssima, o que gerou críticas por parte dos organizadores de festivais. O que você acha do cenário independente atual? Tem acompanhado os conjuntos que surgiram em Goiânia? E em outros estados? Tenho acompanhado pouca coisa. Faz um bom tempo que não vou a shows, então não sou a pessoa mais antenada com as novidades da cena. Acho que há sim uma escassez de boas bandas, sobretudo no que diz respeito a conteúdo de letras e melodias, mas isso pode ser só gosto também. Para o meu gosto, encontro poucas bandas que me agradam no circuito.
Marcelo Santos Costa marceloadsc@gmail.com |