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05/05/2009
Curumin na Virada Cultural
Show é atrapalhado pela péssima qualidade do som


Nos últimos anos, a música independente transpôs as garagens. Há uma porcentagem considerável de artistas de qualidade, com potencial para agrado popular. Duas semanas atrás mesmo, lembro de assistir às gravações do Música de Bolso de Heitor e Banda Gentileza ao lado de dois casais da terceira idade, que pararam por ali pelo simples gosto da canção. Aplaudiram.

Em janeiro, presenciei uma família completa - três gerações - aos balanços do Numismata, no Festival Alavanca. Em fevereiro, Diego Franco escreveu por aqui sobre o potencial do Pélico para rádios AM e alto-falantes rodoviários. Assim vai. A grande discussão que tenho abarcado ultimamente - e visto bem em voga - é justamente por que essas bandas são tão limitadas a espaços indie, casas noturnas, pequenos concertos e veículos. E por que, mesmo nesses lugares, não alcançam sua devida popularidade.
 
Então entra na história o Curumin. Não acredito que seja um mestre de canções, como os acima citados, mas é um artista consistente, que carrega boas batidas e acompanha outros músicos promissores nessa jornada em busca de aberturas. E Curumin já tem porte maior de artistas como Pélico e Heitor, capaz de encher o Studio SP, ainda que não se sustente em São Paulo como deveria.
 
Digo que não é um mestre das canções, porque não tem letras geniais, longe disso. Mas por outro lado afirmo que é um artista que merece louvor pelo trabalho que faz com samplings, trazendo referências do do rap de artistas como BNegão, Black Alien e Racionais para o pop. Talvez em seus dois discos a qualidade de suas camadas não se exacerbem, mas é uma lacuna certamente preenchida pela sua apresentação. Centrado na bateria, acompanhado por Loco Sosa (Los Pirata) numa mesa de som, Lucas Santtana num segundo microfone, Curumin é pivô de um dos melhores shows da cena independente atual. Além - dado esse fator, somado a um público já intermediário, Curumin é quem mais tem chances de conseguir qualquer possibilidade de crescimento que haja para o cenário dos artistas até então independentes. O porte do China, sem carregar consigo o peso de um Mombojó.
 
Foi com essa frente de show que Curumin inclusive já ganhou público considerável no exterior - Estados Unidos e Europa - onde sua turnê já se sustenta melhor do que no próprio país. Agora, e oportunidades por aqui?
 
Enxerguei a Virada Cultural como tal. Curumin subia no palco da Santa Ifigênia à 1h50; à 1, a rua já estava cheia, por fãs e, mais importante para esta discussão, por resquício do público da apresentação anterior e outros curiosos en passant. Uma abertura para a prova de fogo: abranger um público mais diversificado, quiçá gerar um falatório e abarcar daí uma popularidade mais decente em sua própria cidade. Não quero soar exagerada. Uma centena de ouvintes conquistados, que seja, enquanto número pequeno dentro da Virada Cultural, é de grande representatividade para um músico independente. Daí a importância que coloquei ali. Uma oportunidade.
 
É. Uma oportunidade, não fosse a infraestrutura do palco Santa Ifigênia, que coloco lado a lado à do karaokê quinzenal do vizinho cá de baixo. Eu, a cinco metros do palco, sóbria, com audição em forma, sequer consigo citar a música de abertura, tão silenciosa estava. A seguinte, um pouco mais alta, identifiquei como Clementina de Jesus. A linha de baixo parecia não existir, Lucas Santtana estava mudo, Compacto soava como feita a capela. Volume míninimo - pecado capital para um concerto que prima por camadas. A cada música, tentavam subir um pouco o som, mas já era tarde. O público e a banda logo se desanimaram, a caixa se esvaía em ruídos indecentes a cada 30 segundos e as boas centenas de cabeças ali presentes foram se distraindo e enfim dissipando junto a minha esperança da noite.
 
Torço por um fim de mês compensatório no Auditório do Ibirapuera, onde juntos se apresentam Curumin e Guizado e a infra-estrutura não falha. Difícil angariar um público espontâneo como o da Virada novamente, mas o Auditório já representa um bom passo além das casas noturnas. De grão em grão, quem sabe.


Stephanie Fernandes
celophanie@gmail.com
 

 

 

 


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