Dois grandes shows dentre alguns flashes e desleixos
Valeu a pena enforcar o sábado indo embora, depois de não ter conseguido ver nem Iara Rennó, pra acordar cedo no domingo e fazer a maratona ao sol.
Mesmo às 9h da manhã, a multidão para ver Cordel do Fogo Encantado era enorme. Perdi umas três músicas e isso foi praticamente metade do show que durou menos de uma hora e só deixou um gostinho mesmo, pois além de mais elétrica e rasgada, com um violão que virou uma guitarra quase metaleira, as percussões mais graves, que são marca do grupo, quase não eram sentidas no peito. Ao menos a oratória catártica do vocalista que não se estendeu muito no Palhaço do Circo Sem Futuro mas, em compensação, explicou a história de A Matadeira instigando Canudos no meio dos paulistanos.
Ok, melhor posicionada dessa vez, peguei o Nação Zumbi do início ao fim, e foi quase como ver outra banda também. A maior parte do repertório foi composta por músicas pós-Chico Science e a primeira que tocaram das antigas foi anunciada como um revival mesmo. A banda reafirma de vez sua nova cara e com apoio do público que cantava até as do álbum mais novo.
Lúcio Maia, reivindicando lindamente o trono de Chimbinha como melhor guitarrista brasileiro, mergulhou seus solos numa psicodelia lisérgica tanto sozinho no palco quanto acendendo Côco Dub. E pra quem sentia falta da presença ativa das alfaias nas novas músicas, os percussionistas fizeram uma graça que deu certo: travaram um duelo em que tudo o que eles tocavam pediam pra platéia repetir em palmas. Um público que assistia mais do que pulava, uma banda que embala mais do que agita, essa é a nova cara da Nação.
Uma coisa que a Virada sempre faz de louvável é reviver bandas e projetos de álbuns, como acontece sempre no Teatro Municipal, e talvez a maior ansiedade esse ano fosse para ver no palco os Novos Baianos reunidos (mesmo que sem Moraes Moreira). De fato, foi uma delícia ouvir A Menina Dança e Preta Pretinha ao vivo mesmo que de longe, a guitarra de Pepeu alcança qualquer distância, assim como a voz de Baby ainda afinadíssima.
Já completavam 8 horas de correrias nas calçadas da cidade (que cansa muito mais que qualquer rave de dias no mato), mas lembrar que o que faltava ver era o show da Comadre Fulozinha foi extremamente reconfortante. A delicadeza de Karina Buhr vestiu-nos de plumas os pés e todo mundo dançou côco como se tivessem chegado naquela hora ao evento. (Aliás, mesmo após o show, foi-se quase uma hora de roda no asfalto com a galera tocando e dançando, uma das cenas mais emocionantes desse fim de semana)
Seria o melhor show da Virada se não fosse o maior e mais irritante problema técnico que já ouvi. Soava como boicote, pois até a terceira música nada de equalização: quando o microfone funcionava, faltava captação para o flautista, e por aí vai. Amaralina, música mais conhecida do grupo, estava completamente muda e a raiva tanto da platéia quanto dos músicos era nítida. O mesmo aconteceu no show do Curumim, na madrugada anterior. A última música, além de já estar completamente acústica - sem nenhum equipamento captando os instrumentos -, foi também realizada às escuras! Duvido que tenha acontecido algo parecido com a Maria Rita.
Então qual será que foi o intuito do projeto esse ano? Conversando com o coletivo Laborg, responsável pelas projeções no prédio da prefeitura, confessaram que a produção do evento deu-lhes 72 horas para montar toda a intervenção, além de outras críticas. A 5ª edição da Virada não teve um arrastão de fãs dos Racionais, mas foi, com certeza, a mais desorganizada da curta história do evento.
Ágatha Barbosa agatha@bananamecanica.com.br
|