Pedro Luis e a Parede
Ponto Enredo
EMI; 2008, Harmonia Mundi; 2009
Devoção, malandragem e horário-de-pico. Tudo isso em equilíbrio nos desdobramentos modernosos do samba.
“O samba é o santo remédio...” diz a música que abre o álbum, só pra reforçar que não tem maior verdade e/ou maior clichê do que dizer que no Brasil tudo acaba em samba – olhem nosso rock provando isso novamente. Quanto mais perturbada é a realidade, mais samba pra amenizar nosso domingo. E quem sou eu pra ir contra tal cultura, muito pelo contrário, devido a essa relação é que músicos como Pedro Luis e a sua respeitável Parede mantém o samba realmente vivo e dando conta de expressar o hoje.
Longe de fazer sambinha pra gringo, o conjunto carioca vem em Ponto Enredo acertando num samba urbano e tecido dos mais diversos fios do Brasil numa música híbrida que nos impede de simplesmente taxar de afro-samba, mangue-beat, samba-groove ou qualquer outra colagem já redundante. “Não somos um grupo de samba e venho notando que hoje em dia ele vem sendo utilizado como subterfúgio para classificar quem faz simplesmente música brasileira”, pelas palavras do próprio Pedro. Um emaranhado de cotidiano, sensualidade, asfalto, areia e muita religiosidade é o que tece a expressão mais do que natural da banda tanto nessa formação como quando encarnam o sua outra formação, o Monobloco.
Malandragem afinada (até demais; esperava mais gritos viscerais de Pedro Luis à Jorge Bem, que ele sempre fez tão bem) em Ele tem a beleza que eu nunca sonhei que teve participação de Zeca Pagodinho para falar da música como uma musa numa pegada mais tradicional de sapato branco e flor na lapela. Mas já em Repúdio, letra em parceria com Carlos Rennó, um peso da guitarra na cadência de partido alto soando como trip-hop nos tiram do fundo do quintal para espreitar as janelinhas dos presídios. Qualquer semelhança com o movimento de foco do nosso dia-a-dia não é mera coincidência.
De fato o que mais puxa pela modernidade no disco é a guitarra que vem rasgada mas não deixa em desequilibro quando se mistura com a percussão tanto da bateria como também os mais tradicionais e ritualísticos tambores.
O ponto alto do disco é com certeza a devoção. Seja com inspiração em músicas de cortejo (Luz da Nobreza), com ritmos e letras que nos transportam a um terreiro e falam da mística desse universo (Mandingo), como também em homenagem ao mar (Cantiga, poesia de Manuel Bandeira) ou até mesmo para louvar a própria música. Religiosidade é o nó desse álbum que com certeza já pode se considerar abençoado.
De Noriel Vilela à Eddie passando por Massive Attack e com certeza Mundo Livre SA entre algo de Zeca Baleiro, muita coisa passa pela cabeça ouvindo Ponto Enredo, mas é preciso juntar tudo isso pra tentar uma comparação. Renovar o samba tem sido a diversão de tantos hoje em dia, mas poucos conseguem como o PLAP, fazer algo que soe único, e não mais uma mistura heterogênea de outras coisas. No entanto, o que os diferencia de bandas como os fofos do Numismata é o samba do PLAP soar seguro e, mais do que natural, inerente à expressão deles, com autoridade de quem cresce em meio aos mestres.
Impossível dizer que é um álbum de samba, ou de rock, ou de qualquer coisa, apenas daria para traçar estas e aquelas por influências e ainda correndo o risco de errar por interpretação. Cada música tem a sua cara quase individualmente e todas elas têm a cara da banda. Então, para nortear tal sonoridade, bastaria talvez colocar as bandas citadas acima todas no mesmo caldeirão e deixar as definições pros que não sabem sambar.
Ágatha Barbosa
agatha @bananamecanica.com.br