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15/06/2009
Seletores de Frequência
Um dos muitos projetos de B Negão mostra as diversas faces do cantor


Se há uma palavra capaz de definir Bernardo B Negão é peso. Peso nas batidas, nas letras, na voz, o peso da postura de palco e de mundo. Um peso que inspira respeito.

No sábado 2 de junho, fui ao Studio SP ver B Negão e os Seletores de Freqüência, projeto que nasceu em 2003 e, desde lá, já passou percebido por várias partes do mundo. Eles fazem um som que transita entre muitas sonoridades, mas que tem uma relação especial com o funk anos 70 (funk 70 + B Negão dá pra imaginar a pegada?)

Naquela noite, parte do público era composto por apreciadores da banda, que conheciam as letras e dançavam muito a cada nota de Enxugando Gelo, primeiro e, por enquanto, único CD deles - o próximo está prometido para o próximo semestre deste ano. O resto dos ouvintes talvez ainda não conhecesse os Seletores, mas certamente ouvia Planet Hemp, banda lendária para os jovens dos anos 90 no Brasil. B Negão foi acompanhado por um coro em uníssono quando abriu o show com Stab, grande sucesso da extinta banda.

Provavelmente muitos ficaram surpresos com a desenvoltura de B Negão como líder de banda. Ele não faz o tipo showman, mas dialoga com músicos e platéia numa relação muito particular, muito compenetrada. Seu lado político, que começou nas bandas Planet Hemp e Funk Fuckers, chegou à maioridade. Ele passou da fase de chocar, pois não se choca pra sempre, e agora segue como músico que foca na mensagem, que constrói essas duas camadas de apreensão, e que registra em todas as letras o seu otimismo em relação à  mudança do que pra ele é a sociedade viciada. "Esse som é sobre a ciência da persistência versus a preguiça e a descrença / Paciência é a sapiência do espírito / Viver no presente é a base, a chave para seguir bem na viagem / Evita o desgaste desnecessário durante o seu itinerário no planeta/ Esse som é sobre o processo. O processo é lento" (trecho da música O processo). Ele também está passando pelo processo. Talvez 3 anos atrás B Negão não cantaria uma música do Planet em seu show, agora ele conquistou o seu espaço.
  
No show rolaram dois covers: Zumbi e Hermes Trimegistro. Impressionante como o Benjor levanta qualquer público mesmo não estando presente, a galera pirava e o B Negão: “muito rexxponsa São Paulo”. Jorge Benjor é influência forte da banda ao lado de James Brown, Public Enemy, Tom Zé, Miles Davis, Tim Maia, John Coltrane, Beastie Boys... toda essa alquimia resulta num som que dialoga com o corpo, é imperativo ao movimento, e te instiga a ouvir novamente prestando atenção nas letras geniais e políticas. Portanto, pra quem não conhece, o show impressiona, pra quem conhece, o show impressiona mais.

Eles tocaram todas de Enxugando Gelo acrescidas de duas inéditas: Reação, e Proceder e Caminhar, que mantiveram o altíssimo nível musical das anteriores. Quem não dançava observava atentamente aquela figura de peso destilar sua mensagem completamente concentrado em sua função. Não sei dizer se naquele momento ele é mais músico ou militante, ou se existe distinção entre essas duas camadas.

O show inteiro foi assim, alguns observando meio que fora, outros completamente dentro, alguns surpresos (B Negão não era do rap?) mas todos com um respeito absoluto pelo palco. Não havia atração fora dele. O show dominou completamente o ambiente (o que não é óbvio muito menos fácil). Talvez pelo peso dessas várias facetas de B Negão.

    
Texto: Priscilla Oliveira
priscilla_ogoncalves@hotmail.com

Fotos: Ariel Martini
http://www.flickr.com/photos/arielmartini








 

 

 


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