04/12/2006
Lenine aproveita status de "jóia esquecida" da MPB para rever (e melhorar) seu repertório com liberdade e ousadia
"O Acústico é um projeto irrecusável", disse recentemente Lenine em entrevista a uma rádio carioca. A frase, carregada de honestidade, revela um fato do mercado fonográfico: álbuns-compilação com roupagem acústica e visibilidade garantida na televisão são um dos poucos portos seguros para gravadoras e artistas. Em um momento da indústria em que não há mais apostas garantidas (como antes havia em momentos do auge do axé ou do sertanejo, por exemplo), o Acústico MTV, estranhamente, mantém uma certa aura. Muitas vezes injustificada. Basta citar que o Ultraje a Rigor gravou um (com propósitos óbvios) e que o CPM 22 já chegou a ser cogitado (mudaram de idéia, gravaram um "MTV Ao Vivo").
Com Lenine, o caso é um tanto diferente. Apesar de nome corrente entre apreciadores de MPB, alguns discos lançados (como os bons "Na Pressão" e "O Ano em que Faremos Contato"), compositor conhecido e produtor ascendente ("Segundo", de Maria Rita, por exemplo), Lenine nunca chegou ao grande público. Mesmo emplacando em trilha de novela, com "Do It", em "Belíssima".
O irônico é que esse relativo anonimato só fez bem a Lenine. Sem amarras artificiais com o público, o músico teve espaço para certas ousadias. Aderiu à etiqueta MTVesca de incluir convidados, mas o fez com nomes improváveis, como o baixista camaronês Richard Bona (em "A Medida da Paixão"), a arcodeonista e cantora mexicana Julieta Venegas (em "Miedo"), o rapper brasiliense GOG ("A Ponte") e o baterista Iggor Cavalera (ex-Sepultura, e com dois "g" mesmo, em "Dois Olhos Negros"). Nos arranjos, sem as texturas eletrônicas de seus álbuns de estúdio, Lenine apostou na riqueza melódica e rítmica de suas composições. Comentário aparentemente clichê, mas que ganha outra dimensão com as músicas de Lenine. Basta comparar "Paciência", em sua versão original (com samples, discreta bateria eletrônica, teclados, efeitos diversos e flanger na voz) com a acústica - voz, violão, cordas e harpa. O mínimo de elementos, o máximo de efeito.
É a tal da "nova roupagem" que pipoca em releases do projetos como esse. Mas, ao contrário de muitos artistas e bandas, que reformulam arranjos à revelia da vocação de suas composições, Lenine percorreu caminho contrário, descobrindo formas melhores de comunicar sua música. Que não passa necessariamente pelo filtro de abrandamento geral. Basta ouvir "O Atirador", faixa que abre o disco com bateria pulsante, instrumentos em uníssono e letra sobre um assassino de aluguel que cobra mais barato para executar "almas sebosas".
A temática de Lenine, aliás, é outro dos atrativos do CD. Fã confesso de ficção científica, ele inclui imagens deliciosamente "nerd" em meio a letras que, ouvidas sem atenção, encaixam-se perfeitamente no cânone MPBístico de músicas de amor. Em "A Rede", a música de pescaria e mar ganha contornos improváveis com versos como "às vezes eu penso que sai dos teus olhos o feixe/que controla a onda cerebral do peixe". Ou em "O Último Pôr do Sol", com seu tom pós-apocalíptico ("Os edifícios abandonados/as estradas sem ninguém/óleo queimado, as vigas na areia").
A visibilidade que eventualmente agraciar Lenine só fará justiça à qualidade do cara como cantor, compositor, violonista, agregador de talentos e ávido leitor de ficção científica.
Daniel Lima
dlimasouza@gmail.com