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30/03/2007
Móveis faz do Inferno uma folia
Conjunto comprova que ainda há criatividade no rock brasiliense


Confesso que quando vi a banda pela primeira vez no programa Banda Antes MTV, não entendi o significado daquilo tudo. Danças esquisitas, música sobre Gorbachev e Perestroika e presença de palco dos 10 integrantes que misturam rock, ska e samba. O que esperar de uma banda com o nome de Móveis Coloniais de Acaju? Foi preciso ouvir o CD “Idem” (disponível na íntegra para download no site oficial da banda) para compreender os significados das letras e o potencial de sucesso dessa banda de Brasília.

Ir ao show foi conseqüência dessa admiração. Dia 23 de Março, uma sexta-feira: comemoração do aniversário do sax barítono da banda, Esdras Nogueira. Era 1h da manhã e a fila era grande para entrar no Inferno Club, localizado na Rua Augusta em São Paulo.

Aproximadamente às 2h30, o Móveis sobe ao palco. Começa o show e as pessoas vão se aglomerando na frente para ficarem próximas à banda. Na verdade, o termo que mais serve para defini-los não é banda, mas sim conjunto. Conjunto de pessoas e elementos musicais que cativam o público, o qual tenta acompanhar gestos e movimentos de cada um dos integrantes que criam um clima descontraído e animado.

Além do som contagiante, o público cantava quase todas as letras que, por sinal, não são muito fáceis de decorar. Autor de quase todas as músicas do Móveis, o guitarrista Leonardo Bursztyn consegue expressar nas suas canções o modo sincero de encarar a vida e os sentimentos, sem fantasias ou falsas ilusões (por mais clichê que seja, “a vida como ela é”). Além de fatos reais do cotidiano, as letras quebram estereótipos e tipos de personalidades sem banalizar essas questões. Exemplo claro disso é “Menina Moça”, um samba rock que diz que “pra ser o tal, não é preciso ser você”, e o ska “Perca Peso”, que retrata das coisas fúteis do dia-a-dia com sarcasmo inteligente.

É perceptível a semelhança do conjunto ao grupo Los Hermanos, tanto na ligação do público com as músicas quanto na melodia dessas. Enquanto “Seria o Rolex” lembra os cariocas no primeiro cd, misturando trompetes com leve hardcore, a melancólica “Aluga-se-vende” poderia estar no álbum sucesso de crítica “Ventura”. Ritmos latinos e marchinha também estão presentes nas músicas dos dois conjuntos.

O Móveis Coloniais de Acaju é composto por músicos (grande parte instrumentistas profissionais), que além de terem repertório musical, contagiam e buscam maneiras de tornar o show uma folia para si mesmos. Para mostrar a veia punk do grupo, tocaram covers como “1,2,3,4” e “Família Que Briga Unida”, ambas dos seus conterrâneos Little Quail & The Mad Birds, banda de rock underground fundada em 1988, formada pelo vocalista/guitarrista Gabriel Thomaz (Autoramas), Zé Ovo (baixo/voz), e Bacalhau (Ultraje a Rigor) na bateria. Além disso, o vocalista André Gonzales mostra a potência da sua voz na versão da banda para a intensa “Glory Box” dos ingleses Portishead.

No trecho final da apresentação, os fãs formam uma roda e a banda vai para o meio da platéia: todos prontos para o aguardado hit “Copacabana”. Como de costume, todos cantaram e pularam a música toda, e no fim, a dança que era estranha se torna engraçada e a festa é generalizada. O show é memorável por todos seus elementos e importante para a cena musical de Brasília, que há tempos vem seguindo uma fórmula de rock que deveria servir somente como referência, como o Móveis faz, e não como um modelo de sons e ideais que devem ser eternamente mantidos.

Texto:
Fernando Dotta
dottaespm@gmail.com

Fotos:
Flavio Yamamoto










 

 

 


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