
03/04/2007
The Shins
Wincing the Night Away
(SubPop, 2007)
Barroco + excentricidade = pop?
No fundo, bem no fundo, a separação entre o que é e o que não é pop passa pela questão da acessibilidade. Melodias podem ser mais ou menos "fáceis" - é o que diz o senso comum -, mas poucos se arriscam a explicar a natureza dessa facilidade. É quase um mistério. Ao julgarmos as letras de uma música, no entanto, a tarefa de apontar nuances torna-se viável.
"Wincing the Night Away", terceiro álbum do quinteto norte-americano The Shins, soa como uma pequena (e bela) aberração. Se, logo na primeira audição, fica evidente o maravilhoso apuro melódico e pop das canções, aos poucos salta aos ouvidos o barroquismo das letras, percorrendo direção oposta.
Da mesma forma que o mantra de muitos artistas é dizer-se empolgado com "novas texturas sonoras", o vocalista e compositor James Mercer parece mais interessado em explorar sutilezas linguísticas, malabarismos vocabulares, ousadias de métrica. O gosto pelas palavras sobressai mais do que nos trabalhos anteriores da banda, como os ótimos "Oh, Inverted World" (2001) e "Chutes Too Narrow" (2003). Mas a pista já estava dada desde "New Slang", uma das músicas mais conhecidas do grupo, do primeiro disco.
A tradição de letras impressionistas e de significado misterioso existe de longa data, mas Mercer parece especialmente interessado em levar a técnica um passo adiante. As letras de todas as faixas são longas, dificilmente memorizáveis, complicadas de cantar junto. Soam como um discurso sonâmbulo, cheio de frases desconexas e declarações avulsas. Essa descrição ganha força se julgarmos as pistas deixadas por Mercer: o nome do disco (em uma tradução livre, "espantando a noite") e a primeira faixa, "Sleeping Lessons", sugerem uma relação conturbada com o sono e os sonhos. E, de fato, em entrevistas antes do lançamento, Mercer mencionou sua insônia como fator influente no processo criativo.
Não são letras exatamente psicodélicas, mas cheias de raciocínios meio embargados, como se pensamentos e discussões do dia invadissem o território noturno, travestidos de sonhos.
O psicodelismo, no entanto, surge com sutileza nos arranjos, tributários diretos do pop ensolarado sessentista dos Beach Boys, mas com acréscimo de violões e, desta vez, loops eletrônicos e bandolim. "Sleeping Lessons" abre com uma sequência eletrônica etérea ("Eviscerate your fragile frame / And spill it out in the ragged floor / A thousand different versions of yourself"). "Australia" acelera o ritmo, com um baixo pulsante e guitarras sintetizadas ao fundo. "Red Rabbits", peça central do álbum, é talvez a melhor canção do Shins, surpreendente pela contenção e minimalismo, como uma pequena valsa indançável, mas terna e melodicamente exuberante.
Como nota irônica final, vale lembrar que o álbum sai pelo selo SubPop (célebre por lançar o Nirvana), que sugere subversão do pop no próprio nome. Adequado ao excêntrico Shins.
Daniel Limadaniel@bananamecanica.com.br

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