
15/04/2007
Wilco Sky Blue Sky
(Nonesuch;2007)
Soul e guitarreiro, Wilco se mantém em movimento
A busca pela coerência é perda de tempo. Basta olhar seu gosto musical. Certamente, sabores bem distintos de música cabem no mesmo cérebro em ebulição, sem remorsos, sem culpa (esperamos). Ambigüidade e complexidade de gostos e escolhas é característica marcante dos mais finos espécimes de terráqueos vertebrados e bípedes. Logo, essa ambigüidade se aplica a bandas. Logo, se aplica ao finíssimo Wilco.
Liderado pelo compositor e vocalista Jeff Tweedy, o Wilco surgiu das cinzas do Uncle Tupelo, banda que foi uma das grandes referências, no começo dos anos 90, do chamado country alternativo, ou alt-country. Como um organismo vivo, o Wilco teve várias formas, estruturas e fases. Herdaram o momentum country do Tupelo no álbum de estréia, "A.M." (1995); abraçaram rocks deslavados e enérgicos no duplo "Being There" (1996); engoliram cápsulas de conteúdo lisérgico no simultaneamente colorido e sombrio "Summerteeth" (1999); ganharam o rótulo de "Radiohead norte-americano" com o experimental e complexo "Yankee Hotel Foxtrot" (2002); e, em outro golpe de mutação aparentemente incoerente, rumaram para o hermetismo poético de "A Ghost is Born" (2004), um álbum que misturava Neil Young, krautrock, ruídos e Paul McCartney e, por ironia ou não, falava de crises de identidade, encontros com o Satã e visitas à farmácia (anti-rockstar por excelência, Tweedy sofre de enxaqueca e chegou a se internar para se livrar do vício em analgésicos). Nesse tempo, integrantes chegaram e saíram - ou foram expulsos por Tweedy, déspota esclarecido do grupo. A formação do Wilco nunca se repetiu em nenhum álbum de estúdio.
A essa altura, não deveria surpreender a ninguém a nova guinada da banda em "Sky Blue Sky". Mesmo porque não é adequado chamar de guinada o tom revisionista e sintético do novo disco, que recorre a muitas características já mostradas pelo Wilco, mas dessa vez reprocessadas. Se há novidades, são, sobretudo, duas: o clima soul de algumas faixas e a guitarra cristalina e melódica de Nels Cline, músico incorporado depois da gravação de "A Ghost is Born".
Cline, 51 anos, é uma espécie de guitar hero alternativo, que em mais de 30 anos de carreira já trafegou por diversos gêneros, desde o punk até o jazz, regravando discos de John Coltrane, tocando com a lenda country Willie Nelson e colaborando com integrantes do Sonic Youth. Experiente e insanamente técnico, Cline agradou os incrédulos fãs do Wilco, acostumados à abordagem predominantemente emotiva de Tweedy e trupe, com solos monumentais em "Kicking Television", disco ao vivo de 2005, sua primeira gravação oficial com o Wilco. A chegada de Cline consolida-se como lance de gênio na abertura de "Sky Blue Sky", com a linda e melódica "Either Way".
O lado soul dá as caras em "Side With Seeds", "Hate It Here" e "You Are My Face", esta última a melhor faixa, talvez por ser a mais bem acabada síntese dos mais de 12 anos do Wilco: melodia direta e emotiva, complemento perfeito das letras de Tweedy, poeta permanentemente interessado nas incertezas das relações humanas e da existência ("All of my maps have been overthrown / Happenstance has changed my plans / So many times my heart has been outgrown / Now everybody’s feeling all alone / Can’t tell you who I am").
O Wilco, no entanto, não estancou. Continua em movimento ("I trust no emotion/I believe in locomotion"): basta observar as guitarras. Instrumento quintessencial do rock, funciona como referência confiável das intenções do Wilco em suas diferentes épocas. No começo, Tweedy tratava a guitarra como um violão eletrificado, cheio de batidas percussivas. Passou por uma fase de deslumbre, trafegando dos Stones para os Beach Boys em poucos anos, até se enfastiar em "Yankee Hotel Foxtrot", a virada de mesa na carreira da banda. Em "A Ghost is Born", reatou o namoro e, pela primeira vez, Tweedy, violonista por excelência, admitiu estar melhorando na guitarra. "Sky Blue Sky" é o resultado dessa relação aprimorada. Nunca o Wilco amou tanto as guitarras, e nunca amou tanto armar cenários para duelos entre Cline e Tweedy, ambos claramente em combustão, como em "Side With Seeds" e "Impossible Germany".
A única coerência possível de ser apreendida sobre Jeff Tweedy e turma é uma paixão incondicional pela música, sem preocupações com uma trajetória classificável. Aliás, é justamente essa tendência mutante do Wilco que torna mais divertido adivinhar seu rumo, sua nova negação ou aceitação do passado, a mais recente expectativa despedaçada.
Daniel Limadaniel@bananamecanica.com.br

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