
21/05/2007
Elliott Smith New Moon
(Kill Rock Stars;2007)
Sobras póstumas com gosto de comida fresca
Quase quatro anos após sua morte, a discografia de Elliott Smith se mantém abastecida como se o dono estivesse na ativa. Parte dessa movimentação, iniciada em 2004 com o disco de inéditas "From a Basement on the Hill", tem muito a ver com o estilo de composição e gravação de Elliott, puro "faça você mesmo" enérgico e lo-fi. Introspectivo e aparentemente ligado de forma íntima com as formas mais puras e belas de tristeza, tinha o exato perfil de músico patologicamente prolífico que agora se comprova com o lançamento do duplo "New Moon".
É um disco que surge de forma um tanto surpreendente tanto pela quantidade de canções inéditas ou obscuras quanto pela qualidade delas. São, em maioria, sobras de alguns de seus melhores discos. O inesperado é que sejam tão boas quanto o material privilegiado nos registros oficiais.
Das 24 faixas, sete foram gravadas durante as sessões de "Elliott Smith" (1995) e outras 11 na época de "Either/Or" (1997). São canções que, mesmo fora dos álbuns, refletem exatamente o espírito de cada um. As faixas de 1995 trazem o Elliott de canções cruas e tensas, um folk embalado por sua voz em frágil dueto consigo mesma oscilando entre o sublime e o patético, entre a melancolia suicida e a tristeza vagamente otimista que alguma de suas canções entregavam, apesar de sua fama de depressivo crônico. É o tipo de ambigüidade da bela "Angel in the Snow", que evoca ao mesmo tempo sentimentos de afeto e distanciamento em versos simples como "I'd say you make a perfect/angel in the snow/(...) Don't you know that I love you/Sometimes I feel like only a cold still life/That fell down here to lay beside you".
Diferente da safra antiga, as canções de 1997, mesmo gravadas ainda num esquema modesto pelo selo Kill Rock Stars, ganham mais apuro técnico. Ao mesmo tempo que seu som perde algumas das arestas que o tornavam tão ameaçador como em "Needle in the Hay" (de 1995, conhecida por sua inclusão na trilha de "Os Excêntricos Tenembaums", de Wes Anderson), ganha mais nuance, como na suave "New Disaster" e na rocker "Fear City".
Como pacote póstumo, "New Moon" soa honesto. Como divulgado pela gravadora e crível via comparação com a discografia de Elliott, o material soa intacto e autêntico, do jeito que o músico o teria idealizado.
São raspas de um tacho aparentemente farto e valioso, tão cuidadosamente tratado e preenchido que deixa a dúvida sobre que outro resgate os fãs do trovador folk-punk podem esperar. Bem, o próprio "New Moon" sugere o caminho. Estão incluídas o cover de "Thirteen", do Big Star, e versões ao vivo, só com violão, de "Half Right" e "See You Later", duas das melhores canções do Heatmiser, banda anterior de Elliott. Ou seja: esperem mais covers (há alguns célebres, como "Because", dos Beatles, e "Jealous Guy", de John Lennon) e gravações ao vivo. O que, no final, ainda será pouco diante do tamanho da ausência de Elliott.
Daniel Lima daniel@bananamecanica.com.br

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