01/08/2007
Instiga
Menino Canta Menina
(Trombador Records; 2007)
Música complexa e simples, como um sistema binário O Instiga é uma banda estranha... não, na verdade a banda é bem normal, guitarras/baixo/bateria, uma formação clássica. Estranha é a música. Se bem que... não, também não, porque, afinal, as músicas são rocks, apenas rocks, e às vezes até bastante convencionais. Mas é fato que partindo dessa matéria-prima mastigadaça, Menino Canta Menina (segundo CD dessa banda de Campinas, SP) atravessa momentos em que parece estar tudo um pouco fora do normal. Um coro inesperado aqui, refrões meio que deslocados mais à frente, seqüências subitamente quebradas – cada música dá seu jeito de inverter as expectativas de quem tem enraizados anos de rock/música pop e já se acostumou a intuir para onde uma canção caminha.
Estando uns 10 anos à deriva entre cenas que se destacam pelos nomes (precedidos por new) e pela emulação (às vezes competente e até genial, às vezes superficial e vazia) de sonoridades datadas, é saudável para o rock a existência de bandas assim, que desligam o modo automático. Oxigena. Faz abandonar a deriva, escolher por onde ir - a diferença de quem se porta como autor e cria, de fato, movimento na cena.
Bandas assim nem são tão raras – repare com atenção, há muitas bandas brasileiras com essa pegada criativa, cada uma com seu referencial e às vezes até distribuindo mp3s por aí. Mas o Instiga, com esse novo CD, entrou pra categoria dos realmente raros: consegue criar o estranhamento de uma forma precisa, matemática, mas tranqüila e espontânea, sem os hermetismos de quem traz referenciais jazzísticos para a música pop. Complexa e simples como um sistema binário, a música no Menino Canta Menina é resultado de um olhar inteligente e de um humor refinado, e por vezes ácido, sobre o rock e a música pop que se ouve no Brasil. Inclusive a música popular brasileira - não vou escrever "MPB" porque tem gente que se dói com a sigla.
O vocal, por exemplo. Soa como um vocalista gritão de uma daquelas bandas brasileiras de hardcore melódico dos anos 90, pré-emo, letras em inglês, figurino rocker à rigor e tal, mas que de repente decidisse cantar melodias do Clube da Esquina. Aparentemente não está à vontade, tem sotaque, um erre puxado típico do interior paulista que, se no inglês pode até passar, em português é tido como feio... Como em Ivan, o Terrível, que tem um início quadradão, a voz subindo para um agudo gritado. No refrão, subitamente, a voz volta ao tom mais grave, mas agora acompanhado por um coro de moleques brincando de cantar hinos vikings. Dá pra ver os canecos batidos no alto e espirrando cerveja pelo ar. Nessa faixa – e em todas as outras – Christian Camilo habilmente faz brotar ricos sentidos de uma forma de cantar que aparentemente pouco teria a oferecer. Heitor Pellegrina segue por caminhos parecidos nas duas faixas em que assume os vocais (Olá e Tempo Escasso), ainda que demonstre menos habilidade do que a do vocalista principal.
O mesmo acontece no tecido sonoro costurado pelos instrumentos. Não há um estranhamento ininterrupto: o ouvido primeiro se acostuma com uma célula musical típica para daí a pouco ser surpreendido por um complemento inesperado que implode a normalidade. Como nos vocais, o filé deve ser extraído dessas camadas de sentido que estão quase escondidas e são capazes de desbanalizar as convenções da superfície. Nada soa como acidente: o diálogo das guitarras que não cessam, as linhas de baixo deslizando pra fora das melodias, um baterista que toca a bateria - porque tem baterista que bate na bateria - e a produção perfeita que ressaltou cada detalhe de forma cristalina e com o peso certo.
Dá pra listar referências para guiar quem nunca ouviu a banda? Dá, claro: pode-se reconhecer climas post-rock, momentos que lembrem o velho-novo rock disseminado a partir de 2001 com o Is This It? ou mesmo influências de bandas nacionais. Mas isso é empobrecer um pouco o som do Instiga, porque o interessante aqui é o que é criado a partir dessas influências – inclusive se alguém ouvir o CD esperando por Strokes, Tortoise ou Los Hermanos, vai se decepcionar. O Instiga não é new-alguma coisa, não está à deriva, não está preso a cena musical alguma – no novo trabalho, a banda mostra uma música poderosa, que tem potencial para de se tornar, ela própria, uma referência para outros grupos.
Site da banda: instiga.com
Diego Franco
diegortv@gmail.com