01/10/2007
Ecos Falsos
Descartável Longa Vida
(Monstro Discos; 2007)
Estréia cara-de-pau, anárquica e bem-humorada
Esses caras só podem de estar de sacanagem. Apostaria que sim. Cinco anos depois de formada a banda, há muita idéia doentia acumulada na oficina do Diabo que é a cabeça dos integrantes do Ecos Falsos. O disco de estréia, Descartável Longa Vida, junta tudo numa quase - ou escancarada mesmo - zombeteira variedade de estilos.
Juntos desde 2002, o Ecos chegou a ser quinteto e hoje funciona bem como quadrúpede insano, dando chifradas por aí. A intensidade varia, mas acerta na maioria das vezes. É o tipo de banda que faz um bolero com duas baterias, como na literal Bolero Matador, ou mete slides tortos com coro "pápápáááá" num diagnóstico (preciso, por sinal) da proximidade do Apocalipse na country Findo Milênio. Ou seja: imprevisível. Escutar o disco inteiro pela primeira vez é uma experiência de confusão mental.
O caldo-base, pelo menos, é rock encorpado, com riffs pedaçudos e algumas lascas de osso perdidas no meio. É o suficiente para segurar boa parte do álbum, inclusive as candidatas a hits, como o xaveco carnavalesco-elitista Clóvis Bornay is Dead (Abadá), na semi-otimista Nada Não e na metalinguística A Revolta da Musa, esta com participação pertinente de Tom Zé.
Falo de pertinência porque não faltam casos por aí de "participações especiais" que nada acrescentam às músicas. Não é o caso aqui. Dois a Zero, por exemplo, conforme explicado pelos próprios músicos aqui mesmo no Banana Mecânica, foi composta com a voz de Fernanda Takai em mente. Convite aceito, não tinha como errar. Não por acaso, é uma das melhores do disco: uma discussão conjugal completa, com interrupções mútuas, farpas trocadas e conciliação um tanto amarga no final ("mudo até de opinião/não que eu goste da ilusão/antes ela à solidão").
A terceira ponta é de Sérgio Serra, guitarrista do Ultraje a Rigor, esmerilhando solos na inconseqüente Isso me Cansa. A faixa curta, de pouco mais de dois minutos, mostra bem o tipo de esbórnia sonora que a banda consegue fazer, e os solos de Serra caem bem.
O destaque do disco, no entanto, é o humor sarcástico as letras. Seja tirando sarro da cultura de hypes enlatados (A Última Palavra em Fashion) ou dando a real do modus-operandi do homem moderno ("o que temos e tivemos é bonito/mas não peça pra eu ser tão piegas", Sentimental), eles vão na jugular o tempo todo, sem muito pudor de eventualmente falar merda. Na cara de pau mesmo.
Esse sarcasmo, aliás, é provavelmente a única linha mestra da banda, aquilo que a torna distingüível das outras - pelo menos por enquanto. No disco de estréia, mostram uma bagagem estufada por anos de estrada fermentando piadas e bons ganchos melódicos. A dúvida é se agora, com o tacho devidamente raspado, terão a manha de manter a acidez e, ao mesmo tempo, consolidar uma sonoridade - nem que seja assumir de vez o caos e a imprevisibilidade e se tornar daquelas bandas com o peso da reinvenção nas costas.
Daniel Lima
daniel@bananamecanica.com.br