08/10/2007
Lucy and the Popsonics
A Fábula (ou a Farsa?) de Dois Eletropandas
(Monstro Discos; 2007)
Músicas grudentas e empolgantes, boas pra cair na jogação
Após ser dominada alguns anos pelo monopólio de bandas de rock (ou que pelo menos pensam que são de rock), a cena indie brasileira recentemente têm se mostrado mais favorável a tendências eletrônicas. O mérito disso pode ser associado ao estouro de bandas como CSS e Bonde do Rolê, tanto no Brasil quanto no exterior. Dessa maneira, bandas que se aventuram tecnologicamente estão aos poucos ganhando o merecido espaço e reconhecimento, e o Lucy and the Popsonics se encaixa perfeitamente nesse contexto favorável.
Surgidos em Brasília e divulgados Brasil afora pela internet, a banda é composta pelo casal Fernanda e Pil Popsonic e por Lucy, a simpática bateria eletrônica que comanda o tom de todas as músicas, geralmente rapidinhas, fáceis de ouvir e de gostar, pontuadas por vocais meio histéricos e batidas grudentas, que ficam na cabeça pra sempre.
Assim são as músicas que compõem A Fábula (ou a Farsa?) de Dois Eletropandas, primeiro álbum da dupla. Cheias de referências pop e de tirações de sarro irônicas e bonitinhas (como a Coldplay e Byron em Garota Rock Inglês), as letras são engraçadas e intencionalmente despretensiodas; escrachadas, porém classudas ao mesmo tempo. O som, por sua vez, é cru na medida certa: se fosse um pouco mais melódico, estragava; se fosse mais pesado, perdia o propósito.
A comparação com Stereo Total é um pouco inevitável, talvez pelas letras com historinhas simpáticas e que dão vontade de dançar, talvez porque seja um casal bem-vestido que faz rock eletrônico.
Comparações à parte, o álbum é, no geral, divertido e empolgante. Pode não primar pela técnica, e essa parece ser exatamente a idéia: valorizar mais o "instinto musical" do que a habilidade. Deve ser por isso que funciona tão bem. Quase todas as músicas têm potencial para estourar (e já estão estourando, devagar, na surdina) por todos os inferninhos alternativos. Isso porque, além de serem uma delícia pra dançar, tratam de coisas que estão diretamente ligadas ao universo e ao cotidiano de pessoas jovens, bonitas e baladeiras, de um jeito bem-humorado e com o tipo de linguagem certa pra atingir esse público.
A única crítica seria, talvez, à história dos eletropandas, que serve como pano de fundo para a trajetória da banda e também explica o título do álbum. Os eletropandas, segundo Fernanda e Pil, são seres fofos extraterrestres que vieram para a terra ajudá-los a gravar música sem precedentes. É uma historinha sem muito fundamento, e confesso que não simpatizei muito com ela justamente porque eles não precisam disso. O casal e a bateria Lucy já dão conta do recado, sem necessidade de maiores explicações, nem de fábulas, ou farsas, nenhumas. Principalmente porque, seja fábula, seja farsa, não importa: o álbum foi feito claramente com a intenção de fazer os ouvintes caírem na jogação. E é muito bem-sucedido nesse propósito.
Fernanda Gama
vestidaparamatar@gmail.com